Técnico ultrapassado?

Por Cadu Doné

Para quem acompanha o futebol inglês, a demissão de José Mourinho, confirmada nesta terça, mostrou-se totalmente compreensível. A pá de cal foi uma atuação paupérrima no clássico contra o Liverpool, no domingo.

Às vezes o papo de “evolução do jogo”, “mudança de certos paradigmas”, é visto como “frescura” no meio do futebol – majoritariamente, ainda bastante avesso a qualquer centelha de intelectualidade. Com frequência, por outro lado, penso que a classificação de determinados técnicos como obsoletos, ultrapassados, tem soado imediatista demais, taxativa e simplória em excesso. Não me parece o caso do “Special One”.

No livro The Mixer, Michael Cox nos lembra de uma época em que Mourinho estava na vanguarda. Ao esmiuçar a chamada “estratégia reativa”, o autor revela: “A ‘transição’ agora começava a virar um grande conceito. Era o momento em que um time ia da posse à falta dela, ou vice-versa. Mourinho colocava mais ênfase na transição do que qualquer técnico da Premier League na história, ordenando aos seus jogadores para arrancar subitamente quando recuperavam a bola, e recuar imediatamente quando a perdiam”.

Lendo a respeito desta era, me recordo de um duelo entre os blues de Londres e o Barcelona, pela Champions. Aquele jogo em que Ronaldinho Gaúcho assombrou o Stanford Bridge, com um chute tão surpreendente quanto genial. Antes deste rompante individual, porém, em termos coletivos, o escrete de Mourinho deu um show, encaixando contragolpes cristalinamente pensados, treinados, que fugiam daquela aura de improviso; as transições de Mourinho, por vários minutos, pegaram o Barça completamente desprevenido, de calça curta mesmo. O Chelsea venceu a peleja por 4 a 2, sendo que os três primeiro tentos aconteceram aos 8, aos 17 e aos 19 da primeira etapa. Ou seja: os ingleses começaram passando o trator, num dos melhores exemplos da “estratégia reativa” já vistos. Sempre lembrava desse cotejo quando ficou na moda, no Brasil, dizer que Mourinho era “só retranca”. Nem sempre. Em outros tempos, o luso nos brindou com estratégias muito mais sofisticadas do que isso.

Em seu último trabalho no Manchester United, Mourinho não convenceu. Seu time criava pouquíssimo. Mesmo numa estratégia mais de “reagir”, a equipe não desfilava consciência, consistência para machucar os inimigos nos contra-ataques. Mourinho, ainda assim, frequentemente insistia na tentativa de emplacar essa ideia. Pecava pela falta de repertório. Usualmente optava por um time mais pesado, marcador, com peças de velocidade para executar sua filosofia. O que já está claro há algum tempo, é que os antídotos para essa estratégia já foram disseminados. E, por essa razão, na medida em que insiste em algo que não dá mais certo, Mourinho hoje se enquadra, sim, no que se pode chamar de técnico ultrapassado. Óbvio, porém, que com o talento que possui, com os méritos em termos de estudo que já apresentou, ele pode se reinventar.

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