Sintomas da derrocada

Por Cadu Doné

Que o Palmeiras tenha sido campeão brasileiro com alguma margem, não surpreende ninguém. Elenco já era um dos mais badalados, investimentos bem acima da média tupiniquim… Que o tenha feito justamente quando mirava em outros alvos e jogava com frequência altíssima com os reservas, é algo pouco apreendido e que haveria de ser objeto para a nossa reflexão. É bem estranho, quase inadmissível que um calendário seja tão desorganizado, as coisas tão errantes, aleatórias, que uma equipe não enfrente alguns dos seus principais concorrentes na maior competição nacional sem que estes se entreguem razoavelmente a ela (casos de Grêmio e Cruzeiro, que, junto ao Flamengo, são os esquadrões que poderiam bater o Palmeiras em qualquer formato de disputa); e não deixa de ser um sintoma preocupante de disparidade que, mesmo sem os principais concorrentes focados neste embate, um clube ainda assim consiga arrancada tão avassaladora e calcada nos reservas; que ao menos alguns dos outros grandes, aqueles que priorizaram o torneio de pontos corridos, com seus titulares, não tenham conseguido fazer cócegas nos substitutos do Palmeiras.

Gostamos de nos regozijar com a sensação de que aqui o equilíbrio impera. A quantidade de candidatos é sempre maior do que nos “chatos campeonatos europeus”. Pergunto: será que num dos Nacionais mais importantes do Velho Continente alguém conseguiria edificar longa caminhada de invencibilidade atuando em boa parte do caminho com os reservas, como o Palmeiras fez? Acho que não. Nem Bayern, Real, Barça… Nem as seleções mundiais que vestem essas camisas. Sem querer soar cabotino, lembro que, na maior parte da nossa Série A, quando Inter e São Paulo se assanhavam como os principais postulantes ao título, dizia que nenhum deles ganharia; que Palmeiras, Grêmio ou Flamengo (o Cruzeiro já estava muito atrás) passariam; dito e feito: talvez não tenhamos mais um leque tão amplo de candidatos sérios, hoje, como supõe o senso comum; São Paulo e Inter, por exemplo, que nem têm times exatamente ruins, não se provaram capazes de, indo com tudo, o tempo todo, superar um Palmeiras meia-bomba em boa parte dele. Felipão estava poupando no Brasileirão com bastante assiduidade. Queria Copa do Brasil e Libertadores. Mas, de repente, com os reservas, foi ganhando tanto no Nacional que pensou: “Olha, rapaz, dá pra ser campeão disso aqui, hein?!”. A partir daí, passaram a entrar em cena com mais frequência os titulares – somam-se a esse quadro as eliminações nos mata-matas, que eram as verdadeiras prioridades do “Team Leila”.

“Ah, mas é preciso ter elenco, vocês sempre falam isso”. Sim, sem dúvida. Para substituir suspensos e contundidos, mudar jogos, ter variedade tática e até, vá lá, poupar de vez em quando. Triunfar facilmente com quase todos os reservas, em uma quantidade acachapante de duelos, é outra coisa. É sintoma de toda a confusão que impera aqui. E de uma derrocada técnica absurda da maioria.

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