Messi e Nelson Rodrigues

Por Cadu Doné

A revista France Football divulgou, na última segunda, a sua lista de melhores do mundo. Modric venceu. Messi ficou em quinto. Normalmente quando se traz o conceito de “idiotas da objetividade”, de Nelson Rodrigues, para o futebol contemporâneo, é para criticar o excesso de utilização dos números. Se ele hoje estivesse vivo, porém, contorcer-se-ia com a “objetividade idiota” no esporte bretão em searas mil. A falsa, a estúpida “objetividade” anda há muito onipresente no meio, inclusive, nas mais badaladas premiações. Supera, com louvor, o uso desmedido das estatísticas.

Mais do que observar minuciosa e justamente quem, de fato, joga melhor, com recorrência, ao logo dos cotejos, em si, como a inteligência perceptiva, intuitiva, e o zelo intelectual, o cuidado com pesquisas, amostragens, não são atributos comuns, busca-se muletas, digamos, mais palpáveis para apoiar-se. É mais confortável ancorar-se na segurança de argumentos “lógicos”, “racionais”; em suma, “objetivos” – e idiotas. Neste sentido, fundamentos como “ganhou tal e tal competição”, “levou uma equipe a um estágio inesperado” são quase infalíveis. Além disso, dentro deste cenário, o que acaba importando, no fundo, é o final. Aquilo que se faz na primeira metade da temporada esquece-se solenemente. Ninguém se recorda que nos primeiros seis meses da última temporada tanto Modric quanto Cristiano Ronaldo eram massacrados por Messi e De Bruyne. E o que vale, basicamente, é o advindo em três competições: Copa do Mundo, Euro de seleções e Champions. De um jeito totalmente desmedido, desproporcional, o que se atinge nos Nacionais – mesmo nos mais fortes –, ignora-se, por mais escancarados que estejam os méritos. Para quem realmente acompanha, e entende o jogo, o melhor da temporada passada foi Messi. A explicação para isso está no estudo das partidas, na capacidade de perceber a ingerência que cada um possui dentro dos confrontos. Mas vai explicar diante de quem só quer ver “números” e/ou se limita aos “fatos”, ao “ganhou o quê?” – esquecendo-se que a modalidade é coletiva e sujeita à interferência de circunstâncias variadas, encaixes pouco tangíveis, acasos, materializações que independem, sobrepujam as possibilidades do talento individual. 

Quando a FIFA anunciou os melhores do mundo, o jornalista Oliver Kay perguntou no Twitter: “Eu sei: 1) o Barcelona não chegou à final da Champions; 2) a Argentina foi mal na Copa; 3) sempre recai sobre os ombros dele quando estes times são eliminados precocemente, mas alguém realmente acha que Messi não foi um dos três melhores na última temporada?”. Para a ótima – e retórica – pergunta, Gary Lineker deu uma resposta ainda mais brilhante: “Alguém que entende o jogo, não. O Barcelona ganhou o double largamente graças ao Messi. Ele marcou um gol por jogo e seu futebol foi verdadeiramente uma joia. Futebol de mata-mata é sempre precário. Mas, de novo, se fosse verdadeiramente só o melhor futebolista, ele ganharia todo ano”.

Contenido Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo