Terra no fundo do bolso

Por Rubem Penz

Desconfio de quem não gosta de viajar. Aqui, uma ressalva: não estou falando daqueles aos quais as viagens estão fora das prioridades – ninguém é obrigado a ter uma rotina turística animada e constante. Refiro-me aos que desconsideram a necessidade de ver o mundo além do afável conforto da vizinhança. Sim: sair de casa para longe implica um desacomodo e, justamente por isso, penso ser tão bom e aconselhável fazê-lo. Estar diante do que nos diferencia e nos assemelha aos demais povos – em espaço e tempo distintos – ajuda a compreender o papel de cada um na construção da humanidade.

Agora, se você é uma dessas pessoas que não gosta de viajar, alguém do tipo preocupado em fincar raízes, vou contar um segredo que, talvez, possa alterar essa ideia. Segredo este que nem todo viajante voraz admite com medo de parecer “provinciano”. Um singelo segredo, quase uma poeira conceitual. Em verdade – eis a revelação – mesmo sem ser de caso pensado, levamos um punhado de grãos de nossa terra no fundo dos bolsos. O pó aquele de onde viemos e, por destino, retornaremos (até nas vezes em que a passagem for só de ida). Portanto, caro não viajante, caso seja medo de sair da sua terra o que lhe paralisa, saiba que ela acompanhará você, a favor ou contra sua vontade.

É do chão dos primeiros passos que brota as medidas e os valores para entendermos o mundo. A régua primeva. O relógio, o termômetro, o sextante. Partículas ínfimas e fundamentais tão impregnadas na sola de nossos sapatos que, mesmo ao nos desfazermos deles, já estarão embaixo das nossas unhas. Eternos ciscos que colírio algum há de lavar. O solo onde nascemos e crescemos tatua a pele – quando não corta a ponto de deixar cicatrizes. Os aromas primeiros permanecerão num resquício de ar acomodado entre as narinas e os pulmões, escondidos, espreitando as recordações.

Pois é. Retornei faz pouco de uma viagem que faz muito não cumpria: longa, de cruzar oceano. De ver neve enquanto a temperatura aqui em Porto Alegre galgava os píncaros do termômetro. Ainda estou embriagado de encantamento e, por isso, foi impossível evitar o tema – apenas tomo o cuidado de não ser o chato que imagina a própria viagem o assunto ideal (e olha que teria muito a contar). Relevante, relevante mesmo é estimular todos a guardarem um dinheiro e um tempo para viajar. Sem medo: a terra vai conosco e também volta, ali, impregnada nas costuras do fundo do bolso.

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