Vícios no olhar

Por Cadu Doné

No Brasil, quando um volante possui razoável técnica, aceitável qualidade, fala-se bastante que ele é a figura responsável por “sair mais para o jogo”. Por outro lado, no instante em que encontramos um corredor nato, um cara sedento, implacável na marcação, na perseguição aos adversários, e carente de um refinamento ao menos mais visível, costuma-se cravar: “camisa 5”, “cão de guarda”, “Pitbull” do meio-campo. Estes rótulos não passam de exemplares clichês que rondam as análises futebolísticas por aí; denotam preguiça intelectual, ignorância e brigam com diversos fatos – atuais e passados.

Talvez a equipe do mundo que mais venha subvertendo o descrito lugar-comum, nesta temporada, seja o Chelsea, do ótimo italiano Maurizio Sarri. Na sua ida para Londres, ele levou seu fiel escudeiro dos tempos de Napoli: Jorginho, volante brasileiro que perdemos para a seleção italiana – ainda bem que Tite chamou Allan na última convocação, evitando novo prejuízo. Se Jorginho é daqueles volantes clássicos, que atuam de cabeça erguida, e Kanté, que já estava nos blues, revela outro estilo, mais mordedor, a lógica de um comentário simplório daqui seria imaginar o francês abrindo o meio-campo, mais recuado, e o brasileiro/italiano com mais liberdade, um tanto à frente deste alicerce da destruição. O posicionamento de Kanté na França campeã do mundo poderia incentivar o raciocínio traçado: lá ele foi realmente o primeiro volante.

Sarri anda fazendo uma transformação profunda no Chelsea. Em termos de sistema e filosofia. Trocou o 3-4-3 de Conte, que chegou a dar o título aos súditos de Abramovich, por um 4-3-3. As ideias de priorizar a defesa, de um jogo mais rústico, e de aceleração, de certa verticalidade, foram substituídas por uma pautada na obsessão pela posse. No novo meio-campo, um triângulo: Jorginho mais recuado; à frente dele, Kanté um pouco à direita, e Barkley pela esquerda – este foi o tripé, inclusive, da goleada no último domingo contra o Burnley. O objetivo de Sarri com esta disposição é que Jorginho, passador, controlador de jogo, inicie a fase ofensiva, seja um armador lá de trás, clareie as ações no seu início, na saída de bola, sempre selecionando a melhor jogada logo de cara, em seu nascedouro. Kanté, por seu vigor físico, mais adiantado, e com a proteção de um companheiro por trás dele no meio-campo, estaria mais apto a fazer uma espécie de “vai e vem”: quando quer avançar um pouco o combate, pegar um adversário no campo da defesa inimiga, pode dar uma arrancada para este bote; não obtendo resultado com a tentativa, tem mais velocidade para voltar rápido e preencher o meio. 

Olhando para o passado, outro técnico italiano nos brindou por anos com um dos melhores exemplos da teoria aqui esmiuçada: Carlo Ancelotti, nos seus áureos tempos de Milan, deixava quase sempre Pirlo como o volante mais recuado e Gattuso mais à frente, com liberdade para ir à caça e voltar.

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