Um filme de terror

Por Rubem Penz

Fantasmas, zumbis, psicopatas; possessões demoníacas, ocultismo, bruxaria; animais repugnantes, reais ou fantásticos… Mesmo com variações esporádicas, os filmes de terror dificilmente escapam deste cardápio clássico em combinações mais ou menos frequentes. Também constantes são as ambientações: castelos no alto da montanha, florestas brumosas, vilarejos distantes, casas abandonadas, qualquer lugar na Idade Média e chuva. Sempre assim – pouca gente e muita nebulosidade. Como pano de fundo, a maniqueísta disputa do Bem e do Mal para o domínio da face da terra. Adoro.

Incontáveis pinotes na cadeira do cinema compõem meu currículo. Da mesma forma como entrar num show de comédia nunca impediu alguém de rir (ah, já sei que a história tem uma pegadinha…), saber do susto não previne o susto. A bem dosada combinação de como, o que e quando acontecerá, preparada minuciosamente pelo diretor, vai surtir resultado. Arrisco dizer que a certeza da assombração, elevando nossos níveis de adrenalina, tende a potencializar as reações musculares involuntárias. Todos sabemos do sobressalto. Porém, como acompanhamos a história, não há escapatória.

Houvesse como escapar, teria algumas dicas. Por exemplo: sempre que um cavalo desconfia de algo e paralisa – ou evade –, faça o mesmo. Se o cão ladra, acredite. Quando houver um corredor longo e escuro, evite a última porta. Portas, aliás, são um capítulo a parte: está entreaberta? Não entre. Ao fechá-la atrás de si, jamais permaneça ali encostado; todo cuidado se abre ou bate, tranca ou destranca. Prosseguindo, “vamos nos separar para…” sempre será a pior ideia. Verificar se alguém está morto é pedir para que se mexa (mesmo, ou especialmente, se estiver morto). Fuja de sótãos, porões e cemitérios à noite. Cuidado com os espelhos, olhe por onde pisa, evite as escadas. O perigo sempre estará às suas costas.

Mas, por que este assunto agora?

Ora: se ler, escutar ou assistir histórias de terror não fosse importante para a nossa vida, novas existiriam? Antigas seriam recontadas? (Até crianças pedem por elas – ambientar no terreno da fantasia nossos medos ajuda a lidar com eles.) Quem sabe por ter assistido “A freira” no final de semana? Ou, dado o cenário brasileiro por esses dias, um filme de terror parece ocultar – ou revelar – uma boa metáfora? Aliás, isso me recorda a vó quando vaticinava: tenha medo dos vivos, não dos mortos. E o que não tem faltado por aí são vivos, bem vivos, a nos assombrar. [opa, meu cavalo parou…]

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