Tite, Dedé e demagogia

Por Cadu Doné

Escrevo esta coluna na terça, poucas horas antes do edificante duelo do Brasil contra El Salvador. Só se fala em outra coisa…

Não sei quanto tempo Dedé jogará. O que vale aqui, para nós, porém, é o seguinte: a declaração do treinador “cebeefiano” na coletiva da última segunda tentando angariar empatia, nos assaltar com toda sua sabedoria, um bom senso tão messiânico quanto seus discursos nos comerciais, foi uma grandíssima piada. Que Monty Python, que nada. Seth MacFarlane? Fico na dúvida se Adenor afrontou conscientemente a nossa inteligência; se desnudou, no fundo, uma inocência quase tocante de que aquilo colaria/fazia algum sentido – será que ele mesmo acredita?; quem sabe, talvez, seu staff tenha feito uma vaquinha com Neymar e contratado o mesmo gestor de crises do nosso garoto, que entende a opinião pública tanto quanto o criador de um comercial político que anda veiculado nas rádio por aí – “miga, sua louca?! Vamos achar neste aplicativo um homem bacana, que vota no Geraldo?”. Quanta naturalidade, quanta verdade… “Nossa, o picolé de chuchu não é só ‘razão’ (?); ele também tem coração, amigos…”. Gênios, esses marqueteiros!

No twitter do craque Samuel Venâncio – digital influencer nas (poucas) horas vagas pra blogueira proteinada da Boticário nenhuma botar defeito –, um dos trechos mais representativos do comovente discurso: “Quando eu era técnico de clube, sempre gostava que o técnico da seleção tivesse um respeito para devolver em boas condições. Dedé não vai jogar o tempo todo”. Sério, Tite? Poxa, cara… Quer dizer então que ele vai iniciar o cotejo e atuar, sei lá, talvez “só” 45 minutos? A nação azul agradece de joelhos sua inenarrável bondade. Como é sensato… Graças a Deus a amarelinha está entregue a um sujeito tão sensível, preocupado com o próximo. Nesta quarta, sem dúvida, se o Mito marcar, Alberto Rodrigues lhe agradecerá assim que pronunciado o último “gol” da sua famosa escalada. Você vai entrar no CD do Vibrante, Tite!          

A demagogia de toda a persona de Tite salta aos olhos desde sempre. Justiça, todavia: num grau assaz considerável, talvez em média apenas ligeiramente menos caricato, esse problema é epidêmico em todo o meio do futebol. Um tanto irônico que, por carência de percepção, erros de avaliação, ou pela vitória de outros impulsos – que não a preocupação com a imagem –, Tite e seus asseclas têm perdido a mão e desagradado até alguns da parte mais dócil da mídia em situações facilmente evitáveis. O absurdo fundador está no nosso calendário e no fato de não pararmos em datas Fifa. “Relevadas” infinitas camadas de erro, entretanto, custava alguém, num lapso de sagacidade, ter sacado: “Eureca! Se vamos dar mais minutos a Dedé e/ou a Paquetá em apenas um dos dois jogos, por que não fazê-lo no primeiro?”. Seria mais correto, justo e, cristalinamente, o melhor para a imagem, para o julgamento perante as massas – o que, sabemos, é um dos motores, um dos nortes nítidos do nosso treinador.

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