Esporte e Literatura

Por Cadu Doné

Interessante como os ótimos livros de Daniel Galera exalam, com frequência e competência, altas doses de fisicalidade – e como estas vira e mexe se relacionam com a prática de esportes. Em “Barba ensopada de sangue” o protagonista é um professor de educação física que, em Garopaba, quando não está dando aula de natação – é adorado pelos alunos –, gasta boa parte do tempo livre nadando no mar, correndo na praia, explorando a natureza local – esplendidamente descrita – em caminhadas cativantes por montanhas, rios, recônditos que nos soam imensos.

Michel Houellebecq disse certa vez em entrevista que um dos atributos que mais aprecia em romances é simplesmente a capacidade de emocionar o leitor – e mencionou como chorou copiosamente ao ler determinada cena de um livro de Dostoievski; o dom para transmitir, espargir, assaltar o público com vivos sentimentos se faz presente em Galera também nestes momentos marcados pelo físico, entremeados pela prática esportiva. Há ali uma catarse, a endorfina da prática esportiva espalha-se, parece nos contaminar na própria leitura. É um forte indício de sua notável capacidade como escritor que ao lermos sobre seus atletas ficamos com vontade de sair correndo, nadando, gastando energia; que ao nos familiarizarmos com os cenários detalhadamente retratados destas práticas esportivas fiquemos doidos para viver, explorar, afirmar a vontade em Garopaba – ou até na Porto Alegre das corridas de Duque (“Meia-noite e vinte”).

Em entrevista que fiz com Galera recentemente o perguntei a respeito desta fisicalidade dos seus livros. Em sua resposta, um dos pontos que mais me chamaram atenção: para o autor, o laço entre mente e corpo é extremamente atado. Digno de nota é o fato de que, a despeito do que esta crença, por um olhar superficial, poderia sugerir, Galera, claro, pela inteligência que tem, não sucumbe à armadilha de associar o esporte necessariamente a certos clichês de um tipo de bem-estar, de determinada saúde, “uniformidade” mental. Corredor inveterado, Duque se suicida e é fascinado por ideias sobre o fim do mundo, por teses antinatalistas – o que, óbvio, não obrigatoriamente denota algo ruim e/ou vinculado à infelicidade. “Eram fragmentos de livros de ensaios, obras de ficção, artigos e notícias. Todos sobre o fim do mundo. Duque tinha sublinhado trechos a lápis e, em alguns poucos casos, anotado nas margens das folhas. Os títulos das obras referidas eram coisas como No tempo das catástrofes, Há mundo por vir? (…). Havia uma pilha grampeada de citações antinatalistas, pregando que o ideal era não nascer. Schopenhauer, Cioran, um cara chamado David Benatar”.

A literatura nacional de primeira vinculada ao futebol ganhou ótimos exemplos neste século: “O segundo tempo”, de Michel Laub; “O drible”, de Sérgio Rodrigues, entre outros. No Brasil mal sabemos o que é um livro, e que existem outras modalidades fora o esporte bretão. Daniel Galera pode te mostrar as duas coisas…

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