CONSCIÊNCIAS CHAMUSCADAS

Por Rubem Penz

O mundo inteiro volta sua atenção ao incêndio de trágicas proporções que consumiu o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, Brasil. Foi dizimado por inclementes labaredas o mais importante acervo da América do Sul em áreas do conhecimento a perpassar ciência, arte e história. Um prédio que era, num só tempo, nosso Louvre e nosso Castelo de Versalhes e, por isso, é impossível aqui elencar o patrimônio perdido. Duzentos anos recém – e muito mal – comemorados, hoje transformados em cinzas. Dia 2 de setembro de 2018 compondo uma página vergonhosa na inacreditavelmente torpe história recente deste país conflagrado. Escárnio, vilania, incompetência. Asco.

Assombrado, acompanho notícias as quais dão informações de difícil digestão. Por exemplo: o orçamento de manutenção para nossa mais expressiva instituição, de insuficiente, migrou ano após ano para ridículo; não havia PPCI (Plano de Prevenção Contra Incêndio) no museu, e a deterioração das instalações era evidente; os hidrantes próximos não funcionaram, retardando a ação do Corpo de Bombeiros e impactando diretamente o trabalho de combate ao fogo. Para piorar, igual quadro se repete neste exato instante em grande parte das instalações geridas pelas diversas instâncias do poder público, o que significa a garantia de que outras catástrofes virão. Mais hoje, mais amanhã. Em Porto Alegre, Manaus, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo… E nas entrevistas há quem tenha a coragem de atribuir o fato a uma fatalidade.

Agora, sabe o que é pior? Dezenas (centenas?) de consciências sairão sequer chamuscadas deste incêndio. Pessoas concursadas, eleitas ou contratadas para gerir os recursos e conduzir as ações numa cadeia de poder e encargos que percorre os escaninhos das climatizadas salas dos mais diversos escalões públicos. Uma cascata invertida a chegar, invariavelmente, aos repugnantes palácios do Planalto Central de hoje. Não só: também àqueles de pelo menos 20, 30, 40 anos – período que só faz diluir a responsabilidade de quem já esteve à frente da administração por dois, cinco, oito, 13 anos. Brasileiros com áspera culpa e ensaboadas desculpas.

O certo não é feito por que faltam recursos? Não: faltam recursos porque o certo não é feito. Por exemplo, a torneira escancarada na reforma do vizinho Maracanã para a Copa do Mundo é apenas mais uma gota de ironia neste espetáculo de desmandos e canalhices o qual, com tantos e tão variados personagens, fica difícil apontar um protagonista. Palmas, palmas! A farsa é sucesso de público e crítica. Tragédia consumada. Não foi ninguém. Uma fatalidade.

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