Carta aos paraninfos

Por Rubem Penz

Queridas madrinhas, queridos padrinhos,
incontáveis formaturas assisti. Pudera: olhando para trás, dou-me conta de que todos os meus afetos de muitas maneiras dão relevância à formação. Também a nobre atividade compõe minhas raízes genéticas, principalmente no tronco materno (aliás, um fragmento do diário de meu bisavô – professor – traduzido do alemão por uma tia avó – professora – me foi de grande proveito para a vida). E, contrariando os impacientes, considero os ritos de colação de grau belíssimos – até mesmo quando cansativamente extensos.

Toda vez ocupo a poltrona, vibro desde a música de abertura até o atirar dos capelos para o alto, marcando o encerramento da cerimônia. Choro com as homenagens aos pais, sou todo atenção aos discursos dos oradores ungidos pela turma, compartilho do orgulho dos diretores. Captar um pouco da personalidade de cada formando através da música por ele ou ela escolhida para servir de trilha sonora à diplomação vale ouro para quem guarda uma visão crônica da vida: um show de diversidade. Porém, o ápice do meu prazer – raríssimamente frustrado – reside na expectativa pelo discurso dos professores escolhidos para apadrinhar os formandos.

Defendo a tese de que, ao docente, ocupar o púlpito para representar os colegas é algo como o Oscar da categoria. Significa ter sensibilizado a turma de modo especial; ter contaminado pessoas com entusiasmo, algo ao mesmo tempo tão simples quanto precioso; ter criado laços, construído pontes, cultivado flores. Ser uma fonte de inspiração. Todas as profissões deságuam na excelência quando exercidas por vocacionados, mas, nenhuma vocação será plena sem mestres inspiradores. Isso transforma a educação na vocação maior entre todas as vocações. Quase um sacerdócio – e isso explica muita coisa…

Essa carta aberta, além de render a necessária homenagem à categoria, tem um motivo particular: pela primeira vez fui escolhido para apadrinhar uma turma. Uau! Centenas de formaturas depois, experimento essa honra por mim sempre cultuada, e ainda estou incrédulo. Graças à generosidade da turma de formandos do Curso Livre de Formação de Escritores da Metamorfose, tornei-me um padrinho-calouro. E, como estou presente no currículo para habilitar os escritores na crônica, achei pertinente escrever e publicar uma em agradecimento. Assim, num só tempo, presto reverência aos colegas professores e cronistas diante de ninguém menos que vocês, os leitores – começo e fim de nossos esforços de aprimoramento.

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