Filhos da ira

Por Gustavo Varella

Consulta em qualquer dicionário nos dá alguns sinônimos para ira: raiva,  fúria, cólera, ódio, rancor. O primeiro deles, a raiva, muitos até admitimos frequentemente sentir talvez porque sublimada a algo cotidiano, banalizada como o amor, tolerável enquanto exprime insatisfação com algo ou alguém.

Quanto aos demais, como a ira, somos, comedidos em admiti-los povoando nossos pensamentos, porque sabemo-los invocações do mal, ou daquilo que somente o mal pode produzir. Entretanto, se nos envergonhamos em assumir a capacidade de odiar, de guardarmos rancor de alguém, ou em reconhecermos que usualmente agimos movidos pela fúria ou pela cólera, subliminarmente praticamos atos ou nos entregamos a consequências de atos, vontades, palavras, ideias ou nos envolvemos com pessoas que são – e muitas delas se vangloriam de sê-lo –  os chamados filhos da ira.

Não se pode negar que são imbuídos de senso de justiça, até porque gestados em tempos ou úteros de profunda desigualdade e sofrimento, mas a carência de caridade, de generosidade e a falta de empatia que os vitimou produziu mais que do que revolta que trazem em seu peito: tirou deles o discernimento que nos impede de transformarmo-nos naquilo que combatemos. Os exemplos, como diriam os Titãs, “estão no chão… você tropeça…” e, infelizmente, nesse caso, acha que é a solução! Vivemos tempos sombrios e poucas são as expectativas de melhoras, pelo menos em vida.

Talvez tenhamos apenas interrompido a descida de uma ladeira que custou e custará, pelo desatino e pela desonestidade de muitos de nossos governantes recentes e atuais, o futuro de dezenas de milhões de crianças aos quais foi subtraída a esperança de uma formação profissional melhor num mundo de tigres emergentes e famintos. Preocupantemente vemos crescer o número dos que demonstram aceitar o discurso de morte ou de violência como sendo a via adequada a nos resgatar a vida.

Aos que riem dessas advertências e reflexões e aos que insistem em rotulá-las “de esquerda” quando muitas vezes nem sequer sabem diferenciar uma mão da outra, ouso lembrar que são esses discursos de ódio que produziram as maiores tragédias da humanidade, infladas pelas mesmas pessoas pacatas que tempos depois pagaram com as suas vidas pelo desatino que incentivaram. Problemas não são pregos para os quais a única serventia quem lhes dá é o martelo. E martelos jamais serão instrumentos adequados à solução de demandas quando estas são sustentadas por fios tênues de direito e de esperança.

Ainda podemos reverter uma cada vez mais consolidada tendência de substituirmos uma porcaria por outra tão ruim quanto, muito embora com defeitos de outra natureza. Eleições não são terreno de vinganças, até porque do outro lado do cano sempre estaremos nós mesmos.

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