Missão (quase) impossível

Por Rubem Penz

– Hei, você aí!

– Eu?!

– Sim, você. Trouxe a carteirinha do sindicato? Eles andam incomodando e a multa é alta.

– Deixa ver… Hum, não, na verdade. Nem sabia que tinha um órgão assim tão preocupado em fiscalizar as…

– Peraí: como assim, não sabia?! Então você não deve ser garçom coisíssima nenhuma.

– Ok. Não quero matar você, uma figura menor, elenco de apoio. Já morrerá muita gente. Vou abrir o jogo: meu nome é Ethan Hunt e preciso entrar nessa recepção disfarçado de garçom para impedir o assassinato do Embaixador da Noruega, talvez a semente da Terceira Grande Guerra.

– Agora ferrou, velho, ferrou mesmo. Já vi esse filme e não vai rolar. Olha só: você vai entrar, daqui a pouco precisará escalar o poço do elevador, trocar tiros, sofrer um envenenamento, essas coisas de agente secreto, e vai sobrar pra mim. Dá outro jeito para isso.

– Não, não… Você não entendeu: o plano está cronometrado. Eu PRECISO entrar como garçom.

– Assim, no mole? Sem ter feito o curso do Senac? Sem registro na Carteira do Trabalho? Onde é que você pensa que está? Na Europa, Estados Unidos, Japão? Aqui é o Brasil, a coisa é muito séria! Depois, a missão dá errado, você perde o emprego e lembra: vou botar aquele bufê na Justiça! E ainda alega desvio de função, insalubridade, periculosidade; informa que estava armado sem registro, que subiu no poço do elevador sem EPI, pede uma indenização impossível e fecha nossa empresa.

– Olha, prometo que não vou entrar na Justiça. Só preciso entrar, temos menos de um minuto.

– Você e o Jair…

– Jair? Quem é o Jair?

– O último que prometeu a mesma coisa e ó: entrou com uma reclamatória violenta. Não vai rolar. Avisa os roteiristas: no Brasil, precisa mais do que se vestir de garçom. Tem que falsificar a carteirinha profissional, o registro na carteira de trabalho, diploma do Senac, guia do INSS… Posso apresentar um despachante que é tiro e queda.

– Oh, 10 segundos! Sinto muito, tenho que matar você.

– Vai lá, isso nem é vida, mesmo. Aproveita e atira no cara do sindicato que vem vindo ali.

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