Espelho, espelho meu

Por Gustavo Varella

O momento é de Copa do Mundo, e mesmo que muitos considerem este mês quadrienal tempo de alienação ou vadiagem, a riqueza que circula durante o evento é muitas vezes superior ao resultado do comércio direto ou indireto de itens, marcas e direitos que ocorre nesse período em todo o globo terrestre. É que somos conduzidos a pensar que resultado positivo tem de ter expressão material imediata, aferível em qualquer balanço contábil que aponte o céu azul dos lucros expressos em moeda nacional ou estrangeira.

Esquecemos que comércio é resultado de uma série de etapas que começaram há milhares de anos quando duas tribos rivais precisaram superar seus medos e sua agressividade para trocarem entre si seus excedentes, de modo que todos tivessem acesso aos itens básicos de sobrevivência. Daí aos atuais complexos modelos de gestão ou de logística foi apenas questão de tempo e adaptação. Copas são palcos de futebol, mas antes disso são vitrines das sociedades de onde os times se originaram.

Estamos no meio do caminho, mas muita coisa pode ser entendida apenas olhando a reação das torcidas aos sucessos ou às derrotas de suas seleções. Tomemos como exemplos as torcidas brasileira e alemã no dia seguinte ao último jogo da primeira fase. Os alemães, eliminados na véspera, foram trabalhar chateados com o resultado do dia anterior e tristes porque perderam a oportunidade de chegar ao pentacampeonato. Já os brasileiros, vencedores, amanheceram novamente imersos em dezenas de teorias conspiratórias. Guardamos inúmeras diferenças com os alemães, nenhuma delas forjada em ódio racial, político ou inimizade por questões de fronteiras e outras mais.

A maior dessas diferenças talvez seja a forma de entender-se como país, como sociedade, como povo. Sem embargos à culpa pelo protagonismo, os alemães foram, nos séculos passados, completamente destruídos em sua economia, indústria e até em sua demografia. Nós, brasileiros, não sofremos, desde Cabral, um décimo do que eles sofreram. Temos duas vezes e meia a população da Alemanha e um território quase 30 vezes maior, com pelo menos 10 vezes mais recursos naturais, área agriculturável ou temperatura natural ideal para diversas atividades, que lá exigem calefação, combustível etc.

O técnico da Alemanha, após o jogo, deu entrevistas dizendo “jogamos mal, não nos concentramos, julgamos errado nossas potencialidades e empregamos mal nossos recursos”. Tite, excelente profissional, em situação semelhante falaria o mesmo. Já as reações… A população alemã, tenho certeza, uns fariam muxoxo, outros compreenderiam, mas todos começariam a pensar no Catar. No Brasil, no entanto, passaríamos um ano discutindo o cabelo de Neymar, dois reclamando da lista de convocados e quatro xingando a narrativa de Galvão Bueno. Isso explica muita coisa.

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