Um fiel depositário

Por Rubem Penz

Então você derrama uma lágrima. Uma só, e nela a dor numa concentração extrema, a saudade pungente, a alegria de uma conquista rara.  Um diamante, se os diamantes fossem líquidos e a balança que mede a humanidade estivesse calibrada. E a lágrima solitária que fizera transbordar a luz dos seus olhos, agora desprendida, corre pela face e pede – suplica – por solidariedade. Por instantes, uma dúvida: a quem confiar sua preciosa lágrima?

Ao entregá-la a um jornalista, esteja certo de que a lágrima jamais terá corrido em vão. Dela pode nascer uma manchete e um enternecimento; pode iniciar uma investigação para ofertar o tema ao convívio de todos; podem vir graves consequências. Jornalistas gostam de lágrimas, se alimentam delas. Perseguem-nas.

Mas a lágrima é íntima, e você pensa em confiá-la a um poeta. Escolha sublime – poetas, como poucos, semeiam lágrimas. Depois de cruzarem por sua alma, brotarão novas e muitas lágrimas nos olhos dos que escutarem os versos, lerem o poema. Outra vez sua lágrima alcançará incertos propósitos, seja em consolo, denúncia ou fé.

Agora, quem sabe seu confidente seja romancista? Ah, a glória! De uma pequena e singela lágrima há de nascer uma saga… Pessoas dessa natureza constroem mundos inteiros a partir de um nada de água e sal, desde que, ali, haja verdade e força. E sua lágrima cruzará oceanos e séculos, traduzida em línguas estrangeiras.

Conceder sua lágrima ao médico poderá trazer a cura, ao pároco o perdão, ao filho um legado. Ao advogado, justo o direito. Uma lágrima diante do analista poupará muitas palavras vãs; vista pelo cônjuge, a solidariedade; diante do oponente, a trégua. De uma lágrima, uma só lágrima, quando com endereço de remetente, poderá vir respostas.

Em receio, contudo, confie sua lágrima a ninguém. Ou seja – e como escreveu o velho Braga –, ao cronista. Ele jamais duvidará de seu valor, pois aos seus ouvidos convêm os sussurros da alma. Nos jornais, fará a lágrima pública com o esmero de um poeta e, quando significante, com a eternidade da ficção. E quem sabe com isso oferte remissão, justiça, paz? Insondáveis são os destinos das palavras úmidas ao encontrarem seu fiel depositário.

Para quem deseja experimentar-se na crônica, este gênero tão afeito aos meandros da alma, a oficina literária Santa Sede está com matrículas abertas. Escreva para mim e seja você também um fiel depositário da História.

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