Dois minutos e nada mais

Procurava aqui um tema que movesse meu ânimo no teclado e, quem sabe, o ânimo do leitor (seu ânimo) para estes dois minutos de leitura, quando uma onda de pensamentos nebulosos me abateu. Contra a minha vontade, percebi estarmos chegando aos anos vinte do século vinte e um e, como quem traz uma bola de ferro atada nos tornozelos, o século vinte nos segura. Pudera: foram cem anos incríveis! Avanço tecnológico inebriante, saltos inacreditáveis na medicina, conquista do espaço, explosão demográfica, aumento da expectativa de vida, fenômenos artísticos e comerciais em escala global. É de se esperar que este brilho intenso custe bastante a se apagar.

Mas nem tudo foram flores – houve muitos canhões. E há quem fique andando em círculo, condenado a repetir o uniforme de bailes passados e que já não servem mais. Rússia e China com líderes concentradores de poder em mandatos que se reprisam, Europa voltando a se fracionar, América do Norte em seu delírio de banca no carteado das nações, América Latina insistindo em líderes populistas, África submetida e submersa em lutas fratricidas, Oriente Médio e suas teocracias… Aqui e ali, pessoas tentando promover consensos, equilíbrio, desenvolvimento sustentável, cooperação. Por todos os lados gente apostando na discórdia, na acumulação, no imediato, no conflito – justamente os pontos negativos do século passado.

Há alguns consensos que já poderiam ter emergido com uma pequena, mas ainda assim razoável distância histórica. Por exemplo: na atualidade, sociedades mais saudáveis têm poucos ricos e pobres, e uma classe média preponderante e digna; precisamos migrar para a energia limpa e deixar de queimar petróleo; as liberdades individuais devem abafar preconceitos; os indivíduos precisam exercer direitos e deveres sem paternalismo; professar determinada religião não faz ninguém superior, inferior ou oponente; a paz deve ser o valor maior buscado por cada liderança instituída. Não são teses revolucionárias, mas defendê-las, hoje, faz-nos beirar a ingenuidade.

Por mais inglório que seja, tenho empenhado meus dias em transitar para fora do círculo vicioso que nos prende à esquerda versus direita, aos líderes personalistas, ao egoísmo travestido de liberdade, aos acordos de gabinete para manter o status quo. Minha “agenda ostentação” está ao alcance da maioria: três refeições diárias, viver cercado de afeto, rir até doer a barriga, estar lúcido ao invés de drogado, passar adiante valores através do exemplo, honrar a história em forma de legado. Tá, roubei dois minutos seus para dizer o óbvio. Ainda assim é necessário, pois há um jornal quase inteiro a dizer o contrário. Notou?