Minas sob ataque

Minas e os mineiros já assistiram uma parte desse filme. Foi em 1997, quando praças rebeladas fizeram uma manifestação em frente ao Quartel Geral da PM e um tiro matou o cabo Valério, que não estava entre os manifestantes, mas do lado dos que impunham a ordem aos baderneiros. Ao assumir o governo no ano seguinte, o ex-presidente Itamar Franco cometeu o equívoco de readmitir uma parte dos grevistas que o ameaçavam com a possibilidade de se algemarem nas grades do Palácio da Liberdade – ameaça que acabou transformando o histórico Corpo de Bombeiros, em cuja sede está preso o ex-governador Eduardo Azeredo, por ordem judicial, em Corpo de Bombeiros Militar, uma unidade que deveria ser nova, não abrigar os grevistas anistiados por Itamar.

Desde então, a PM nunca mais foi a mesma, até porque da greve surgiram políticos que mantêm os seus mandatos usando a tropa e a família militar como massa de manobra. A cada eleição, os mesmos deputados, estaduais ou federais, manipulam a questão salarial como bandeira de suas campanhas e com isso vão se reelegendo. Essa invasão do Palácio da Liberdade ontem levanta a pergunta sobre onde estavam os comandantes que não fecharam todas as vias de acesso à Praça da Liberdade, como fazia, por exemplo, o governador Newton Cardoso quando o funcionalismo resolvia protestar contra o seu governo? Talvez os tempos sejam outros e medidas duras como as tomadas por Newton Cardoso não se coadunam mais com a era do diálogo e da democracia, regras que deveriam ser seguidas tanto pelo governo como pelos governados. Os amotinados querem o pagamento no quinto dia útil do mês e reajuste salarial. Mas isso todos querem e não precisam pisotear o gramado do velho Liberdade, por que isso é como pisar na alma de Minas, ainda mais quando se sabe que desde 2014 o governo vive sob um decreto de calamidade financeira. Na verdade, o governo mineiro desconfia que tanto essa baderna de ontem como a queima de 60 ônibus nos últimos quatro dias parece ter inspiração fora de Minas e tem a ver com a campanha eleitoral, numa tentativa de desestabilização de Fernando Pimentel, em que as reivindicações salariais são apenas pretexto para o que de fato se pretende. O que Minas espera é que o final desse filme tenha um final diferente do visto em 1997, em que tropas do Exército entraram no Palácio da Liberdade para garantir a lei e a ordem.