Girafas de pelúcia

Desafio o leitor a fazer uma breve reflexão: você, com dinheiro sobrando no bolso, compraria uma girafa de pelúcia, de 4 metros de altura e nariz de LED vermelho, piscando, numa promoção de Dia dos Namorados?

Claro que existem pessoas cujo sonho é ter uma dessas enfeitando a casa, como também existem pessoas que ganham a vida produzindo e vendendo esse tipo de coisa, porém, à exceção destes 2 mil seres humanos, os demais 7 bilhões e meio de seres humanos com quem que compartilhamos o planeta provavelmente ririam diante desse desafio. O problema é que grande parte desses bilhões de seres humanos (dentre eles, nós, brasileiros eleitores) vai regulamente às urnas escolher representantes que são como as tais girafas: não sabemos para que servem, não entendemos bem o que fazem, nem sequer eles mesmos conhecem suas dimensões e propósitos e estão à disposição por muito pouco, basta apertarmos um botão.

Nem sequer precisamos levá-los para casa, embrulhados, arranjar lugar para guardá-los, etc. Eles já pulam das urnas prontos para ação, no mais moderno estilo plug-and-play, todavia sem botão para desligar. E com uma bateria alcalina que dura pelo menos quatro anos. Todavia, tal como essas figuras do título, experimente perguntar a um candidato desses para que serve aquilo para que ele quer seu voto… Salvo poucos e, mesmo esses, de forma muito superficial e nervosa, a grande maioria vai responder “fazer tal coisa (que quase sempre não corresponde à função pretendida) com (e aí vêm os chavões) honestidade e blá, blá, blá”. Somos, os brasileiros, lenientes, preguiçosos e frouxos.

Adoramos filas e promoções e nos contentamos com qualquer coisa fácil e barata que nos mantenha ou nos faça retornar à zona de conforto, como se viu essa semana, quando mesmo sabidamente roubados pelas mesmas pessoas de sempre, formamos filas imensas para pagar às vezes o dobro do preço pelo litro da pior e mais cara gasolina do planeta, absolutamente conformados com as explicações da quadrilha reinante, cujos integrantes muitos deles elegeremos novamente em outubro próximo porque, como as nossas girafas, estão sempre sorrindo e em promoção.

Ainda que cansados de saber que um senador custa por ano dez vezes mais que uma escola de ensino médio e que um deputado federal, na ponta do lápis, sai mais caro que um posto de saúde, ou que vereadores Brasil afora, em municípios onde não se produz renda nem mesmo para o próprio sustento, torram juntos bilhões por ano com coisas absolutamente inúteis ao exercício de atividades que nem sequer eles sabem para que e por que existem, somos preguiçosamente generosos e irresponsavelmente tolerantes.

Girafas de pelúcia, pelo menos, são mais úteis: você pode pendurar algo nelas, decorar a sala, sei lá…e são simpáticas! Cafonas, mas simpáticas!