A crise de representatividade

Por Rubem Penz

Assisti com medo e esperança o surgimento de uma força popular neste tão inconsistente país. E, dentre todas as manifestações repercutidas, uma em especial fez eco em minh’alma: “Eles não me representam”. Sim, sim! Eis nosso principal e mais grave problema – enredarmo-nos numa ciranda na qual quem governa não nos representa. Pior: quem se opõe ao governo, tampouco. Tudo acontecendo em plena vigência de uma democracia tida como representativa. Ou seja, uma farsa.

Assisti com esperança e fascínio o florescer da consciência de cidadania. Também o rechaçar de rótulos, bandeiras e causas requentadas. Nenhum político “tradicional” foi emulador, nem se beneficiou do movimento. Ao contrário, todos os que esperavam ganhar uma carona se deram mal pois, diante dos holofotes, foram desautorizados. Pude ouvir o som grave e cavernoso de seus medos: “Descobriram nosso segredo, a falsa representatividade que há anos nos sustenta”. E, no crescente desprezo às urnas, o comprovado pânico.

Assisti com fascínio e exultação – e era sobre isso que escrevia até agora – as passeatas de 2013. Creio ser aquele o grande divisor de águas dos últimos anos. Um movimento multifacetado e, principalmente, livre de lideranças com as quais se pudesse negociar no bom e no mal sentido. Um clamor verdadeiro contra a forma cega e surda de conduzir os destinos da nação. Um grito de liberdade, palavra tão manipulável quanto o próprio conceito de democracia.

Assisto hoje, com exultação e pânico, um ato de paralização muito mais consequente do que qualquer passeata, panelaço ou mobilização em redes sociais. De semelhante, o embrião de cidadania: outra vez se tornou impossível para agremiações políticas tradicionais colarem bandeiras sem serem atropeladas pelos fatos. E os fatos buzinam a chegada ao limite de colapso econômico uma categoria fundamental na economia: os caminhoneiros. Pessoas que trabalham de sol a sol enfrentando a criminalidade, a infraestrutura precária e a crescente ganância arrecadatória. Ao chegarem ao fim da picada, estacionaram o país.

Assistirei, enfim, a substituição deste pressionado Estado não representativo? Tomara. Seria um lampejo de consciência capaz de estabelecer a frutífera relação entre o servidor público (seja ele eleito ou de carreira) e o povo ao qual, sempre, coube a fatura dos desmandos, incompetência e safadeza. O que iniciou em 2013 se confirma em 2018: nossa maior crise não é só econômica ou moral – é de representatividade. Por aí trafega a solução.

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