Um sorrido (re)percutido

Por Rubem Penz

Olhava TV neste final de semana e apareceu uma banda de axé. Do cantor ao baixista, estavam todos ali animados feito instrutores de academia de ginástica, resultado natural da energia intrínseca ao estilo. Ainda assim, os percussionistas puxavam o cordão dos dentes à mostra: ninguém sorria tanto, pulava tanto, vibrava tanto quanto o trio no comando das baquetas e das congas. O fundão era uma festa! Partiu dali uma pequena pesquisa na memória e, sem erro, concluí ser o percussionista o mais leve, o mais desarmado, o mais afetivo músico de qualquer formação. Quem sabe porque o coração bate em nosso peito, tambores são eternamente cordiais.

Lembrei então de um dos sorrisos mais amáveis que conheci. Num encontro de bateristas em Florianópolis, no ano de 1992, fui apresentado ao mestre Robertinho Silva. Solícito e amável com fãs tipo eu, distribuiu simpatia depois do workshop, ofertando instantes de sabedoria regados a humor ora sacana, ora ingênuo. Uns tantos anos mais tarde, talvez 2007, outro dos monstros sagrados da MPB cuja graça contagiou o grupo foi Chico Batera. Com ele dividi uma mesa de churrasco e, rápido e preciso como suas mãos sabem ser, contou causos engraçados em intervalos de semicolcheias – inclusive confidências impublicáveis de bastidores do showbiz.

Constatado o fato de que a malemolência dos percussionistas não se apaga para além das coxias, é no palco que a função de incendiar banda e plateia depende do alto astral da categoria. Conheço bateristas introspectivos, circunspectos, reflexivos. Mal-humorados, até. Tímidos. Já a turma da percussão é sempre expansiva. Não bastasse a maior amplitude dos gestos – ou mesmo o ágil deslocamento num set que pode ocupar uns quatro metros –, a aura de quem bate o tambor, instrumento de todo sagrado, emana luz. Até no formalíssimo show de Diana Krall ao vivo em Paris, com direito a terno e gravata, é de (e para) Paulinho da Costa os momentos de descontração. E o sorriso mais belo.

Benditos sejam os percussionistas pois, assim como as crianças, eles existem para devolver a complexa magia da simplicidade em nossa vida. São eles que mostram o caminho de volta às origens, às primeiras verdades, ao clamor do grupo, ao calor da fogueira. Sua precisão palmilhada na sutil imperfeição da sincopa mostra ser mais certa a batida fluida, surpreendente, criativa. Quando tudo parecer pesado ou triste ou complicado ou chato, experimente ouvir uma música e tamborilar em acompanhamento. Eis a chave para abrir o sorriso salvador.

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