Por que não creio em algorítmo

Por Rubem Penz

Poucas certezas são tão certas quanto a improbabilidade. Ela é regra da natureza, dinâmica da vida, tempero essencial da existência. Por isso que esse negócio de algoritmo nasceu para dar errado, jurando que dá certo. O refinamento constante das escolhas relacionadas jamais computa a surpresa, o encantamento, a epifania. Ou o susto. Nada é mais inútil do que um grupo com as mesmas figurinhas em busca de completar seus álbuns.

Por exemplo, nascemos de uma improbabilidade gigantesca. Resultado de uma única combinação de gametas, partimos da imperiosa necessidade de nossos pais viverem ao mesmo tempo entre milhões de anos para frente ou para trás. Se um vivesse no século 16 e o outro no século 20, babaus. Depois, se não bastasse isso, há 510.100.000 km² em nosso planeta, o que transforma em algo quase inútil um viver ao mesmo tempo que o outro. Já pensou se a sua chance dependesse de um indiano encontrar uma norueguesa? Apostaria fichas em si mesmo?

Está ruim, e fica pior. Até uma prova em contrário, não basta um casal da espécie estar no mundo ao mesmo tempo e no mesmo lugar para acontecer um nascimento – precisa rolar um clima. E vamos combinar: rolar um clima é bem aleatório. Antes, precisa ser amigo da prima, ou estar no mesmo show, matricular-se naquela cadeira, ser transferido do Recife… Depois, depender do cha-la-lá certo, ou da insistência louca, ou da insanidade momentânea, ou, ou, ou. Um feijão no dente e tudo se esvai; um feijão no dente e a primeira conversa acontece. E se for lentilha naquele almoço? Aí babaus de novo.

Prosseguindo: contra a lei das probabilidades, lá estão seus pais ao mesmo tempo, no mesmo lugar, a cantada certa, véu e grinalda, relacionamento estável e, enfim, o acordo sobre gerar uma criança. Você faz ideia de quantos espermatozoides são liberados numa só ejaculação? São entre 60 e 150 milhões por mililitro, num universo de dois a cinco mililitros por vez. E você existe por apenas um vencedor lançado na ovulação. Basta existir e qualquer um começa a considerar a Mega Sena plausível.

Então, se somos assim improváveis, sobre qual base mesmo vamos assentar nossas certezas (e recursos e escolhas) quando damos ouvido ao algoritmo? Jura mesmo que esse negócio de contrariar a natureza vai dar em boa coisa? A julgar na meleca que tem se transformado a rede social, a resposta é óbvia.

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