Os imperfeitos

Faça o teste: diante de um grupo de amigos, numa mesa de bar, faça um elogio rasgado a alguém. De preferência uma personalidade de sucesso incontestável, como Pelé, Roberto Carlos, Oscar Niemeyer… Tenha certeza, em poucos minutos surgirá alguém citando algum erro ou desvio cometido pela pessoa elogiada. “Pelé? Ele não reconheceu a filha!”. “Roberto Carlos é cheio de manias. E não deixou publicar a biografia dele”. “Niemeyer é ótimo, mas é comunista!”, e por aí afora. É como se exigíssemos das pessoas uma perfeição impossível de ser alcançada, porque todos, óbvio, cometemos erros. E na maioria das vezes, a falha apontada não é na carreira, mas em questões particulares. Na prática, valorizamos o comportamento pessoal em detrimento do desempenho profissional.

Seria apenas uma questão curiosa se ela não tivesse reflexos em nossas decisões eleitorais. Lógico, é importante termos conhecimento das comportamentos dos candidatos. Problema é quando a avaliação das atitudes fica acima da avaliação dos projetos. Na última semana, por exemplo, o cenário político ganhou um personagem de peso. Bem avaliado nas pesquisas, Joaquim Barbosa passou a ser tratado como potencial candidato à presidência da República porque seria a encarnação do “novo”, aquela figura esperada pelos eleitores, nascida e crescida fora do ambiente conspurcado, fétido e apodrecido da nossa política. Joaquim Barbosa teve uma passagem tão notável quanto rápida pelo Supremo Tribunal Federal. Foi indicado por Lula porque o então presidente desejava ter um negro na Suprema Corte. Óbvio, tinha credenciais para o cargo. E as apresentou no julgamento do Mensalão, encontrando caminhos para mandar para a cadeia figurões como José Dirceu e José Genoino. Depois, saiu de cena, alegando questões de saúde, entre outros problemas. Ressurge, agora, como candidato. Aparece bem nas pesquisas (tem em torno de 10% das intenções de voto) principalmente por conta de seu comportamento ético. O país precisa mesmo de alguém de bons princípios na presidência. Mas isso não basta. E não se sabe, até agora, quais são os projetos de Joaquim Barbosa para a economia, para a área social, para a educação. E isso se repete, por exemplo, com Jair Bolsonaro, outra figura de personalidade forte, discurso vigoroso e projetos desconhecidos.

As características dos brasileiros, aqueles, capazes de manchar a carreira de qualquer um por conta de questões particulares, tendem a construir um cenário perigoso, onde os eleitores votam num candidato baseado em suas características pessoais, quando o país necessita, na realidade, de ideias claras e projetos definidos. Ou os cidadãos se conscientizam disso ou as crises moral e econômica vão se aprofundar depois das eleições. E correremos o risco de entrar numa crise institucional grave. A definição está na mão do eleitor. Ele pode se comportar com a responsabilidade de quem  define o futuro da nação ou a irresponsabilidade de quem gostaria, apenas, de levar vantagem numa discussão de mesa de bar…