Autoajuda

Pode parecer papo de autoajuda. Não é. Trata-se de algo que envolve várias nuances. Aspectos táticos e técnicos. Bom senso. Características dos atletas…

O Cruzeiro precisa acreditar mais no próprio potencial. Arriscar minimamente, se soltar. Ainda vigora bastante no futebol o clichê de analisar estratégia sob a égide dos rótulos “ofensivo” e “defensivo”, e de atrelar estas dicotomias ao número de atacantes, de volantes. Aqui não me refiro a nada disso. Postura, ideia de jogo. Aí sim…

Diante do Grêmio, o principal problema da Raposa: esperar em demasia o oponente no campo de defesa; linhas muito recuadas; nenhum intento de se impor – até em termos psicológicos; mostrar quem manda em casa, assustar… –, tomar a iniciativa, controlar com a bola no pé, trocar passes. “Ah, o Corinthians foi campeão com um comportamento totalmente reativo…”. Tudo bem. Mas o Cruzeiro sequer pareceu sincronizado, preparado para encaixar transições interessantes. E a harmonia entre filosofia e peças do elenco? Os celestes não apenas possuem um plantel cuja qualidade haveria quase de, por si só, propiciar um acréscimo de arrojo; as características das opções existentes combinam com uma atitude de mais coragem. Dá até para dizer o seguinte: com jogadores essencialmente criativos, de passe, pouca velocidade, e poder de marcação diminuto, flertar com o perigo seria justamente colocar suas fichas excessivamente no combo defesa/contragolpe. Robinho e Cabral, organizadores de pouca explosão/pegada, para se fechar e acelerar na retomada? Sóbis como “falso 9” para virar, na prática, secretário de lateral direito? Arrascaeta – habilidoso, driblador, e dono de dificuldades para fechar os flancos – para “exageradamente” recompor e ter pouco do seu talento aproveitado na construção? Thiago Neves, meia clássico com competência ímpar de furar retaguardas postadas com enfiadas tão inteligentes quanto imparáveis, desperdiçado por se ater além da conta a tentativas de um “esticão”? Por aí vai…       

Deixemos claro: embora seja possível afirmar que no ano passado, em alguns momentos, o Cruzeiro pecou por algo análogo, cabe dizer que em diversos instantes da sua carreira Mano provou que é capaz de montar seus esquadrões da maneira que sugiro. Pedir sua saída é precipitado, injusto. Estamos falando de um dos melhores da profissão no país. Na linha do “aprender com os erros”, apenas menciono um defeito que para mim ocorreu no último duelo – e em ocasiões anteriores.

Frente ao Atlético, no embate do título, antes da expulsão de Otero, a Raposa alugou o campo de ataque com maestria. Pressão, imposição, controle, chances de gol. Sim, ali um resultado elástico era necessário; sabemos também que, até fisicamente, existem certos limites para assim proceder longamente dentro de uma mesma peleja. Concedidos estes descontos, contudo, vendo a avalanche que aconteceu no começo do clássico mais recente, me peguei pensando: por que o Cruzeiro não faz isso mais vezes?