Páginas viradas

Por Rubem Penz

O relacionamento, no começo, promete ser maravilhoso. Há muita afeição, carinho, cuidado. Um capricho dedicado em cada instante – comprovável por qualquer um que vê de fora, seja de longe, seja de perto. No caso das mulheres, nada que seja surpreendente, pois são (eram?) educadas para a delicadeza. Para os rapazes, meu caso, um asseio “de mãe estranhar”: em geral, nunca se vê tanta lisura nas palavras, tanto zelo no trato. Há um compromisso íntimo e realmente verdadeiro: seguir assim por muito tempo. Até o fim, jura tácita, quando não explícita. Juntos, lindos de se ver.

Porém, passam os dias, passam os meses, e nas traiçoeiras armadilhas da rotina, um a um, os primeiros sinais de desleixo. Tudo o que outrora fora íntimo e, por assim ser, belo, se torna banal. Corriqueiro, fútil. Desnecessário. Nalguns casos, somem as cores. Em maior velocidade, o asseio declina. O que mais se nota enquanto estão juntos é a pressa – túmulo do desvelo que, pela ótica da fria praticidade dos dias, antes só retardava o que poderia ser feito de modo instantâneo. Nem mesmo o toque de mãos fica imune à negligência. A brutalidade deixa marcas.

E a coisa vai ficando feia. Para muitos, horrível. Degradante. Impossível de se entender. Os amigos reparam, a família reclama, mas há um “Tanto faz, agora já foi, mesmo…” escrevendo cada nova página dessa história a dois. Para piorar, há sempre registros muito próximos de que no começo não era assim. Bastava seguir atento. Clichê verdadeiro: era só prosseguir investindo na relação. Estranho, porém: quando degringola, repetir adiante o carinho do começo só aumenta o contraste. E, por falar em constâncias e contrastes, outros conseguem manter a relação harmoniosa, viu? A culpa não pode ser terceirizada jamais.

Crônica também é confessionário: este quadro acima descrito vi acontecer durante minha vida. Eu próprio, quem diria, fui protagonista, culpado, vilão. Não tenho orgulho em admitir, apenas a decência de, enfim, reconhecer. É duro, sabe, muito duro ter consciência de que jamais seremos o bom exemplo a ser seguido pelos filhos. Cai por terra qualquer chance de repreensão quando esbarra no “faz o que eu digo, não faz o que eu fiz”. Educação é sinônimo de exemplo. E eu sou, oh dor, um péssimo exemplo. No passado, ano após ano, reiteradamente, mesmo desejando acertar a cada recomeço, tratei muito, mas muito mal meus cadernos escolares. Coloridos, lindos, limpos e caprichados nas primeiras páginas. Sebentos e garranchudos antes mesmo de maio chegar.

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