O homem no castelo alto

Início dos anos 60. Faz 15 anos que os aliados perderam a Segunda Guerra Mundial. Uma bomba atômica em Washington pôs um ponto final no conflito. Agora, Alemanha e Japão controlam o planeta. Judeus já não existem na Europa. Políticas de eugenia são aplicadas ao redor do mundo. A “Bíblia” é um livro proscrito. O centro de tudo é Berlim, capital do nazismo. Lá são tomadas as decisões do “império de 1.000 anos”, como queria Hitler. Os Estados Unidos já não existem mais e seu território foi dividido entre o Grande Império Nazista e o Império Japonês. O mundo vive sob a égide do totalitarismo global.

O simples exercício em pensamento desta realidade nos dá calafrios, não é mesmo? Pois é este o mundo descrito por Philip K. Dick no seu “O Homem no Castelo Alto”, livro publicado em 1962 e adaptado para a TV pelo serviço de streaming Amazon Prime. Acabo de assistir a segunda temporada, cujo produtor executivo é o brilhante Ridley Scott. A próxima leva deve ter mais dez episódios e o lançamento está previsto para este ano. Enquanto assistia, correndo encomendei o livro pela internet. Nas primeiras páginas já é possível notar que a obra escrita difere bastante da série. O autor foca sobretudo nas vidas de pessoas comuns já acostumadas a conviver sob a égide de um regime totalitário. O ponto de ligação entre elas é o I Ching, o oráculo chinês. Já a série agregou personagens heroicos e elementos de ação.

Philip K. Dick, conhecido como PKD, foi um brilhante escritor futurista. Criou obras disruptivas, distópicas, que seriam depois adaptadas com sucesso para o cinema. “Blade Runner”, “Total Recall”, “Minority Report”, entre outros, tem a lavra dele. Mas Dick não viveu para usufruir da fama e do dinheiro que vem com ela: morreu de um AVC aos 53 anos, no início dos anos 80. Tinha visões e dizia falar com seres do além. O uso enlouquecido de anfetaminas ao longo da vida parece ter comprometido a razão do escritor. Tal qual Van Gogh, a loucura talvez tenha aprimorado a genialidade. Ou vice-versa.

Dias destes estava eu novamente assistindo documentários sobre a Segunda Guerra Mundial. É quase um hábito. Milhões de vidas se foram para que a liberdade prevalecesse. Confesso que por vezes percebo o mundo ocidental não valorizando o que conquistou a duras penas. Pensem nisso.