Morto ordinário

Por Gustavo Varella

Ninguém sabia quem era. Apareceu ali, na beirada da calçada, morto. Pelas roupas, normais, não se podia dizê-lo rico ou pobre, já que qualquer um poderia comprar aquela calça, de marca famosa ou falsificada. Tênis (ou sapato, vai saber…) levaram. Ou os seus algozes, ou alguém que passou ali e precisava de calçado. Não tinha documentos nem carteira, furtados ou esquecidos em algum lugar. Ninguém cercava o corpo, aos prantos, pela dor da perda ou absolvendo os criminosos: “Ele procurou isso!”.

A idade era incerta: criança não era, pelo tamanho do cadáver, mas velho também não aparentava ter sido até deixar de ser alguém, se é que um dia foi. Como desconhecido era, não se lhe sabia a ideologia, ou eventual simpatia eleitoral, de modo que crime político não parecia ser. Isso levava a outra situação: ninguém ali reivindicava seu corpo como mártir de nada, tampouco como herói de alguma luta. Do bairro também não era, até porque ninguém lhe reconhecia as roupas ou sabia de alguma mulher ou mãe desesperada com o sumiço.

Não despertou a curiosidade da garotada, que continuava por ali mais interessada nas marcas dos fuzis dos policiais que registravam a ocorrência: “É AK? Não, arrombado: é HK!”. Não devia ser mesmo um ilustre, já que não aparecera nenhum fotógrafo ou jornalista para cobrir o fato. Uma mulher disse ter ouvido barulho de tiros na madrugada, mas achou que não era nada importante e voltou a dormir.

Outra fez o sinal da cruz no meio do post que fazia, depois reclamou sozinha da palavra errada que digitara em razão da distração repentina. Um senhor de aparência distinta disse baixinho a mais resignada e bovina das frases diante da morte: “É…para morrer basta estar vivo”! Resignou-se e entrou na padaria para comer alguma coisa antes de partir para o trampo. Um garotão, de moto, assustou-se com o giroflex da viatura ali estacionada, mas sorriu aliviado logo que percebeu o motivo.

O dono da banca gritou, enxotando um cachorro vadio que se esgueirava cheirando o sangue, sendo censurado por uma menina que passava: “Ai, que violência! Tadinho! Deixa o bichinho!” O especialista daquele lugar foi peremptório: “Pelos orifícios, certamente foi de ponto quarenta com hollow point…” interrompendo a frase no meio ao lembrar que aquele era calibre restrito e alguém podia pensar que ele estivesse… “deixa prá lá”…

Eventual curiosidade dos presentes à cena quanto à identidade do corpo terminou no exato instante em que o motorista do rabecão, ainda encaixando a bandeja numa das prateleiras da viatura, respondia ao colega com quem conversava no celular sobre o atraso que prejudicava a troca de turno naquela manhã: “Aguenta aí que estou pegando o último pacote aqui e sigo direto…como?…não…relaxa…depois registro…ninguém importante.”

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