Nesta data querida

Por Rubem Penz

Aqui na crônica, entre o soprar das velinhas e o apagar do fogo, há um tempo estendido. Explico: o aniversário de Porto Alegre já passou para quem lê, e está em pleno curso para quem escreve. Tipo “Efeito Orloff” ao contrário: eu sou você, ontem. E farei algo raro para mim, para não dizer inédito: vou me dirigir ao sr. Nelson Jr., nosso prefeito.

Pois, caro Nelson, não nos conhecemos, e essa é uma boa notícia. Antônio Maria, brilhante cronista das antigas, dizia que se deve manter certa distância dos que desejamos criticar, pois a proximidade gera laços de amizade e tudo fica mais complicado. A prova disso está na enorme dificuldade de muitos setores em imputar responsabilidades sobre governantes amigos – a camaradagem dificulta, embaraça, constrange. Impede. Sendo assim, posso ser franco.

Começo minha reclamação pelo óbvio: o sr. Foi eleito metade pelo fato de a administração anterior estar ruim (havia uma chapa de continuidade concorrendo), metade pela promessa de melhorar. Fifti-fifti. Isso significa que nós, eleitores, sabíamos da coisa indo de mal a pior – pode parecer estranho, mas os porto-alegrenses, em sua maioria, mantêm o insalubre hábito de andar pela cidade. Portanto, meio caminho eleitoral estava trilhado por qualquer um do campo oposto capaz de capitalizar fracassos. Ainda assim, havia um bom caminho pela frente até o êxito – ele estava no terreno das promessas. Onde havia promessas, foi depositada a fé.

E a fé dos cidadãos diminui na medida em que cresce o mato nas praças e calçadas, aumenta o número de buracos nas vias, depredam-se equipamentos de uso comum, assombra a violência. A fé dos seus eleitores mingua no instante em que não há equilíbrio entre gestão pública e manejo político – um depende do outro. A fé de quem não votou no sr. (legítimo almejá-la) jamais nascerá em quem sabe fazer oposição enquanto não for visto que do outro lado há quem saiba fazer governo. Nossa crise permanece a mesma: uma cidade muito aquém de seu maravilhoso potencial. Sua crise, agora, é de credibilidade. Já nos falta a fé.

Há solução: sr. Nelson, realize suas promessas, trilhe a outra metade do caminho, por favor. Faça mais, nunca menos (menos cultura, menos serviços, menos qualidade de vida). Não há dinheiro? A excelência administrativa não nasce da fartura, é o contrário. Entre votos e realizações também há um tempo estendido – o mandato. Neste seu ritmo, haja velas…

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