E o futuro, ainda veste calças?

Por Rubem Penz

Olhei a nominata de pensadores convidados por um grande jornal para abordarem as questões relacionadas ao futuro e, em seu bojo, temas como tecnologia, relações de trabalho, economia etc. Nela, há apenas uma mulher entre nove homens. Dez por cento, ou, em outras palavras, a maior (ou seria menor?) minoria possível – menos seria nenhuma representante. O que nos leva a pensar na hipótese de que o futuro, por muito tempo ainda, vestirá calças – e não vale dizer que homens podem vir a usar saias como atenuante porque essa moda resiste em pegar.

Não acuso o machismo da iniciativa baseado no fato de saber como isso funciona – busca-se personalidades de destaque e cujas opiniões se mostrem relevantes, independentemente de gênero. A priori, não há preocupação de quotas norteando tal intento. Porém, é impossível deixar de reparar na desigualdade exposta. E, claro, cabem as perguntas: por quanto tempo mais a presença feminina na elite do pensamento será assim desproporcional? Por quanto tempo isso será visto como aceitável, natural, indiscutível? Por quanto tempo ser mulher e, ao mesmo tempo, influente será uma exceção que tão somente confirma a regra?

Creio pautar minhas atitudes no esforço cotidiano em despir-me do machismo que moldou a todos nós (ao menos em minha geração). Sei que não estou só, e muitas mulheres reconhecem o mérito de ter rapazes interessados nessa batalha que não é, ou não deveria ser, só delas. Acostumei-me a estar cercado de mulheres brilhantes e sempre afirmo a teórica superioridade feminina sufocada, em histórica prática, por atos de força, repressão e controle. E, como as relações humanas migram para o campo da inteligência sobrepor o das habilidades físicas, imaginei a paridade tão certa como dois e dois serem quatro. Onde andará a falha na equação?

Rogo para o quanto antes encontrarmos a chave para quebrar este círculo vicioso: mulheres influenciam menos e menos influentes são as mulheres. Na minha opinião, ele deveria ser invertido com urgência até, no mínimo, chegarmos à paridade. Se não for por justiça, será por uma questão matemática – estamos abrindo mão de um sem número de pessoas inteligentíssimas e capazes de sinalizar caminhos para os enormes desafios que teremos logo adiante. E que não precisem elas se masculinizar para isso acontecer – moldem nosso futuro vestindo saias, salto alto, belíssimas. Iguais precisam ser as oportunidades, não as pessoas.

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