Por favor, não buzine, madame

Por Rubem Penz

Impossível ser só eu. Alguém aí também implica com as buzinas, ou melhor, com as buzinadas? Não é hipersensibilidade, frescura, mimimi. Antipatizo com buzinas tal como com o excesso de pontos de exclamação no texto: é inconveniente, feio e dilui a função. Buzinar por qualquer coisa gera o efeito “Pedro e o lobo” – desfaz sua credibilidade. No mundo ideal, ouvir o som estridente precisa significar perigo. Alguma coisa grave aconteceu, acontece ou acontecerá se não estivermos avisados. A função está no nome: alerta sonoro.

Um dos desvios mais desgastantes das buzinadas é quando ela revela apenas a irritação do buzinante. Problemas externos ao trânsito estão roubando a paz, e a pessoa desconta sua frustração afundando o dedo no centro do volante. No fundo, ninguém crê no poder mágico do ato – não, o som não terá o condão de resolver o engarrafamento ou devolver a agilidade juvenil ao idoso que cruza a via na faixa de pedestres. O motorista buzina porque quer gritar, e eu não simpatizo com gente gritona (ainda que reconheça o valor dos gritos na hora certa, por urgência e necessidade). Melhor seria colocar o dedo na própria moleira, quem sabe numa sessão de psicanálise.

Outra aplicação condenável da buzina é a de chamar alguém que está dentro de casa, salvo raras exceções. Antes, precisamos tentar a campainha, bater palmas ou à porta; dar um telefonema ou até mesmo chamar alto, pelo nome. Ainda mais se forem duas horas da madrugada. O que tem a ver este horário? Foi nele que alguém muito mal-educado ficou buzinando durante uns 15 minutos no sábado passado, perto da minha janela, a ponto de nos acordar e não deixar dormir novamente. Chamou-me a atenção a insensibilidade e a insistência, mesmo ao restar evidente a ineficácia do recurso. Estaria alguém morrendo? Espero que sim! Ou melhor, espero que não, claro…

Agora, a pior situação aconteceu faz um tempinho. Um carro à minha frente estava parado meio sem motivo, quando outro carro atrás de mim deu a-que-la buzinada. O motorista, ofendido e irritado (com razão), desceu para tomar satisfações comigo. Calmo, talvez demais, argumentei que não fora eu, e fui acusado de fazê-lo de palhaço. Buzinei, então, para provar que o som era outro. Só um otimista espera que alguém bufando guarde o tom da buzina durante sua ira. Diante da nova buzinada, ele tentou abrir minha porta e, sem sucesso, deu um chute no carro. Pelo retrovisor, vi os olhos muito arregalados de uma madame. Na madrugada de sábado passado terá sido ela outra vez, aqui dentro do condomínio?

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