Quando a natureza fala alto

Há diversas batalhas sendo travadas cotidianamente entre a civilização e a barbárie. Elas acontecem em caráter íntimo (autocontrole, polidez ou, para alguns, até mesmo a higiene), no trânsito, nas relações profissionais, entre vizinhos, amigos, familiares. Todavia, por mais que a vida em sociedade exija enquadramentos, o máximo conseguido é uma espécie de equalização: atenuamos uns traços de personalidade aqui, reforçamos outros ali, refreamos determinados impulsos acolá. E isso tudo é tão fácil quanto indispensável. Até mesmo os bichos a nossa volta agem da mesma forma. Até…

Para o “até” vou contar o que houve com a Lua, nossa labralata (pai labrador, mãe vira-latas). Uma cadelinha de porte médio, muito mansa, simpática e charmosa. Preta com uma mancha branca no peito. Foi bem arteira durante a infância e juventude e, mesmo na idade adulta, esteve muito atenta às chances de aprontar alguma peraltice (nada grave, coisas como tirar toda a terra dos vasos da varanda se deixássemos ela ali sozinha). Quase sempre creditei a essas atitudes o desejo de ter para si nossa atenção, enfim.

Nos últimos anos, com a idade batendo e as novas configurações da família, acompanha-me nas pequenas temporadas de praia, pois consegue ser obediente e não entra em casa mesmo sem grades ou portas fechadas – deita-se na soleira, com a cabeça para dentro. Passou a reinar no grande pátio gramado espantando toda sorte de intrusos (gatos, pássaros, roedores) e “ameaças” (outros cães que chegam à cerca). Hoje, porém, é uma idosa. O focinho está branco, resta cega e surda. Magrinha, também. Tem um problema de pele que lhe dá coceira e as pernas traseiras começaram a dar sinais de artrite. Vi seu antigo domínio ser limitado. Até…

Até hoje pela manhã um galo garnisé transpor a cerca atrás de boa ciscada e ambos se toparem num susto mútuo. A Lua se esqueceu da artrite e, apenas com o faro, passou a caçar a penosa de modo impiedoso. Em outros tempos, a ave estaria com os minutos contados. As limitações do cão transformaram a atividade em hora e pouco de emoção, fuga e exaustão. E, ao ver o ânimo da Lua, pensei que as pessoas também são como são, quando a natureza fala alto. Umas agressivas, outras dóceis; umas impacientes, outras tolerantes; umas cooperativas, outras competitivas. No máximo, equalizamo-nos em busca da convivência em harmonia possível. Lembre-se disso para exercer a necessária tolerância. Dica de saúde 2018: guarde seu pátio, mas deixe o galo intruso dar o fora. Será melhor assim.