Utopia tropical

Por Antonio Carlos Leite

Não é novidade nenhuma: vivemos tempos extremados, de tentativas de sobreposição de umas ideias sobre outras. Ou, talvez, da busca de união entre interesses absolutamente antagônicos. Esse último ponto talvez seja nossa maior característica, nos dias atuais. Não falta, entre nós, brasileiros, admiração por um certo tipo de civilização, regrada, cartesiana, “germânica”. Gostamos da eficiência dos japoneses, admiramos a produtividade chinesa, queremos a clareza das leis norte-americanas, a ética dinamarquesa, a democracia francesa, a seriedade britânica. Mas queremos tudo isso sem perdermos a nossa “alma iorubá”, na boa definição do cientista social e economista Eduardo Giannetti da Fonseca. Em outras palavras, queremos ser “civilizados” sem abandonarmos as nossas raízes de identificação como sociedade, a nossa alegria natural, a nossa espontaneidade. É uma união possivelmente inconciliável, porque sociedades altamente civilizadas não têm a alegria como sua característica. E sociedades marcadas pela espontaneidade não são “civilizadas’ da maneira como consideramos ideal. Não dá para um país ser, ao mesmo tempo, vetusto como a Alemanha e alegre como a Jamaica…

Os reflexos dessa aspiração, desse desejo de uma ordem social determinada por uma autoridade investida de poder popular têm reflexos claros na corrida presidencial. Jair Bolsonaro é filho e depositário dessa esperança, aparentemente vã, de união de contraditórios. Porque há quem veja no estabelecimento da força, da voz autoritária, da mão de ferro a comandar a nação a única saída para colocar alguma ordem numa equação sem solução.

Por uma série de circunstâncias, estamos sendo colocados numa encruzilhada: desde nossos atos mais cotidianos, como a maneira de recolher o lixo, até as decisões mais republicanas, como a eleição do novo presidente do país, teremos de escolher quem queremos efetivamente ser. Talvez seja muito confortável imaginarmos este nosso país, esta nossa sociedade, se enquadrando em regras e funcionamentos já estabelecidos por outras nações. Mas talvez fosse mais interessante, mais instigante, vermos essas regras todas submetidas à nossa maneira de viver e de encarar a vida.

No final das contas, essa insatisfação com nós mesmos nos leva à situação-limite de querermos ser aquilo que nunca fomos. Isso é até possível ocorrer, ou seja, é possível estabelecermos uma forma mais “civilizada” de nos relacionarmos socialmente. A perda de nossas características mais naturais seria inevitável. Diante disso, restaria a pergunta: e a nossa raiz “iorubá”, onde ficaria num quadro como esse? Deixaríamos de ser nós mesmos para sermos outro algo qualquer. Seríamos felizes com essa nossa nova realidade ou a frustração pela perda da nossas raízes acabaria nos levando a um outro tipo de frustração?

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