Pirotecnia nas ruas do RJ

Por Carlos Lindenberg

Consumou-se ontem a intervenção do governo federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro, num episódio marcado por improvisações, falta de planejamento e equívocos diversos, entre eles não saber de onde sairá o dinheiro para custear a decisão do presidente Michel Temer, assessorado pelo seu ministro, não por acaso carioca, Moreira Franco A intervenção, na verdade, esconde uma realidade e um presságio. A realidade foi ditada pelo fracasso do governo em aprovar a prometida e propalada reforma da Previdência. Na véspera de decretar a intervenção, o governo contou os votos e concluiu que não tinha os 308 necessários para fazer a reforma da Previdência. E aí, o que fazer diante do fracasso? Coube ao ministro Moreira Franco, um empedernido emedebista sobrevivente do governo Sarney, dar a ideia: intervir no sistema de segurança do Rio de Janeiro, cujas imagens de violência durante o carnaval, como se isso fosse novidade, criaram um cenário de pânico apropriado para a decisão. O presságio veio junto: com aprovação popular perto de zero, o presidente Temer acalenta o sonho de candidatar-se à sua própria sucessão. Para tanto, após o fracasso da reforma previdenciária, nada melhor do que mostrar as garras e apresentar-se ao país como alguém que tem autoridade suficiente para enfrentar o narcotráfico e as milícias que infernizam a vida do carioca – embora o Rio de Janeiro ocupe apenas o décimo lugar no ranking das cidades mais violentas do país, de acordo com o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas. Mas nem por isso o Rio deixa de ser a vitrine do Brasil e por isso mesmo uma boa moldura para atitudes que possam mostrar aos menos atentos atos de coragem política, ainda mais para quem deseja uma candidatura.

E assim do limão fez-se a limonada. Ou seja, do fracasso da reforma previdenciária, o presidente Temer tenta fazer a limonada para refrescar uma possível candidatura em outubro próximo. A iniciativa, no entanto, é de extremo risco. Primeiro, pelo seu ineditismo e pela improvisação que marcaram o seu advento. Segundo, porque com a intervenção o Exército não pode apenas subir e descer morros, como tem feito até agora, sendo inevitável um expurgo no sistema de segurança do Rio de Janeiro e um combate corpo a corpo com o crime organizado, cujo resultado ninguém pode adivinhar. Enfim, a sorte está lançada. É ver o que virá dessa pirotecnia.

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