O Carnaval não acabou

Por Antonio Carlos Leite

Do futebol brasileiro, já disseram várias vezes, a evolução só se vê dentro das quatro linhas do gramado. Algo muito parecido acontece com o Carnaval de Vitória: o crescimento, o progresso, a beleza são evidentes na avenida. Fora dela, a mentalidade dos dirigentes, com apoio oficial (é necessário ressaltar) é de uma indigência capaz de colocar em risco a própria sobrevivência do evento. Como já foi dito nesse espaço, seria algo a ser menosprezado se não estivéssemos falando de dinheiro público. Mas esse dinheiro anda sendo tratado como se privado fosse, como mostra reportagem na página 03 desta edição. As prestações de conta são frágeis, os questionamentos judiciais brotam de várias fontes, autoridades parecem fazer vistas grossas. Há, enfim, um quadro de suspeitas muito bem desenhado, com a criação de uma liga sem motivação evidente, a utilização de documentos “emprestados”, e a falta de qualificação dos pretensos organizadores dos desfiles levou à medida extrema da assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta por parte das ligas carnavalescas com o objetivo de não prejudicar o interesse público de realização do carnaval, manifestação fundamental da cultura local e do país.

    Mas o fato de as escolas terem ido para a avenida, feito seu show com brilhantismo, baianas, baterias e passistas terem oferecido ao público um espetáculo emocionante como sempre não tira das autoridades a responsabilidade de verificar como anda sendo tratado o carnaval de Vitória fora do Sambão do Povo. A prática tem sido de desrespeito a contratos assinados (como ocorreu no caso dos direitos da transmissão pela TV, feito ao longo de vários e vários anos pela TV Capixaba e rompido sem nenhum tipo de explicação pela “nova” liga), de utilização de documentos de maneira fraudulenta, de manuseio de mais de R$ 2 milhões sem prestação clara das contas.

    Mais do que isso: a prática tem sido de usar a nossa maior manifestação popular e cultural, com a participação de milhares de pessoas como um véu a encobrir irregularidades. Carnaval é importante? Sem dúvida! O desfile deve acontecer? Lógico! Mas por conta da sua importância e da importância merecida por quem participa dos desfiles, é possível tapar o nariz, fechar os olhos e permitir os desmandos ocorridos nos últimos meses, em um espaço público, por uma entidade particular, criada há menos de 10 meses e dirigida por quem não abre de comandar o carnaval sabe-se lá por quais motivos?

    O Ministério Público agiu corretamente viabilizando a realização da festa. Fez o correto. A Prefeitura sabe das irregularidades das duas ligas. Pois bem, agora é o tempo de ajuste de contas. O Carnaval de Vitória não acabou com a passagem do último folião na avenida. Ao contrário: é preciso aprofundar as apurações sobre quem gerenciou as verbas públicas, onde elas foram aplicadas, como os desfiles são administrados, para termos em 2019 um desfile tão correto quanto bonito.

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