Todos querem, menos a lei

O presidente Michel Temer quer, a deputada Cristiane Brasil deseja e o pai, o ex-deputado Roberto Jefferson, orgulha-se. Mas a Constituição impede. Mesmo assim, a deputada pretendente ao Ministério do Trabalho, por indicação do pai, recorreu ao STF ontem para contestar a decisão da presidente Carmen Lúcia. Para a deputada, que sustentou sua defesa no seu histórico na vida pública e no direito do presidente da República nomear quem quiser para o ministério, nada há quem a impede de ocupar o cargo, nem mesmo o fato de não ter assinado a carteira de trabalho de um seu motorista – coisa elementar e obrigatória na relação patrão-empregado na legislação anterior que o próprio PTB do pai dela, Roberto Jefferson, ajudou a sepultar no ano passado. E olha que carteira assinada é um legado histórico de Getúlio Vargas, pai da legenda trabalhista.

Dificilmente a presidente do STF vai acatar o recurso da deputada. A ministra não contesta a decisão do presidente da República de nomear seus ministros de Estado, mas sabe que a Constituição exige o princípio da moralidade pública para que alguém ocupe cargos no ministério. O que se espera de Carmen Lúcia é dividir com os colegas do Supremo a interpretação da Constituição e repartir com eles a responsabilidade pela nomeação ou não da deputada Cristiane Brasil. Sabe-se, no entanto, que a presidente do STF ficou incomodada com a decisão de um ministro do STJ ter dado uma liminar em favor da deputada num sábado e o presidente Michel Temer ter marcado a posse para segunda-feira, sabendo de antemão que o assunto seria despachado por ela, de plantão no Supremo. Como o STF retoma seus trabalhos hoje, é possível que o assunto entre em pauta nesta quinta-feira ou amanhã, até porque o Ministério do Trabalho está vago e o presidente precisa dos votos do PTB para tentar aprovar a reforma da Previdência. Além disso, a deputada quer ser ministra e o pai dela vai se sentir orgulhoso de ver a dileta filha no primeiro time de um governo que tem 70 por cento de impopularidade, segundo o Datafolha de ontem. Essa mesma pesquisa, muito aguardada por ser a primeira após a condenação de Lula pelo TRF4, dá ao ex-presidente a liderança em todos os cenários em que seu nome aparece e lhe garante a vitória no primeiro e no segundo turno. Quando Lula não está no cenário, o beneficiado é o deputado Jair Bolsonaro.