As hipóteses e o moinho

Por Rubem Penz

“Quando notares estás a beira do abismo. Abismo que cavaste com teus pés” – Cartola

O “se”, essa espantosa síntese da hipótese, existe para justificar cientistas, artistas e filósofos. Por extensão, pode-se dizer, também, para salvar a humanidade de todas as suas vicissitudes – sejam elas os limites do corpo, da alma ou da consciência. Tudo o que foi criado, antes de existir de fato, existiu em presunção. Porém (ai, porém, como diz outro samba), nem tudo o que existiu na teoria, passou a existir de fato: hipóteses falham em baldes, confirmam-se a conta-gotas. Nem assim, nem assado, deixamos de tentar.

A única falha no processo é aplicar o “se” no passado e, com ele, formular teses para o presente e o futuro. Lembro de um livro no qual surgia a seguinte questão: e se o Cartola fosse branco e nascido na zona sul carioca? Minha resposta é que ele não existiria de fato, e o Brasil, com isso, seria mais pobre. Afinal, como todo compositor, Cartola reproduz em forma de versos e melodias sua bagagem particular de experiências, influências e vida. Retirar dele tal patrimônio é modificá-lo até a última célula. Sua trajetória foi difícil, é verdade. E vejam tudo o que foi construído a partir dela, um legado inestimável.

Nossa vida, minha e sua, é composta pela soma de decisões diárias que remontam muitas gerações. Neutras, boas e más, nossas e de outrem. Por isso não dá certo voltar no tempo e corrigir problemas pontuais. Quem sabe não foram determinadas falhas a encaminhar futuros acertos? Ter essa consciência serve tanto para nos apaziguar com o passado, quanto para com o futuro. Ninguém domina todas as variáveis, e reconhecer a importância do revés retira um peso enorme dos nossos ombros. Precisamos disso para mudar: perdoar-se dos erros para modificar as coisas, mesmo diante do abismo.

Este ano nasce com muitas oportunidades de balanço e decisões. Há, por exemplo, e como poucas vezes na história, transparência sobre como, onde e por que nosso país marca passo – as vísceras de Brasília estão a mostra. Ao mesmo tempo, há uma eleição sui generis em diversos aspectos. Meu convite a todos: com base no exaustivamente exposto de passado e de presente, presuma com sensatez nosso futuro. “Se” todos fizermos isso, poderemos acertar ou errar nas escolhas – é do jogo. Caso não, já estaremos errando. Afinal, disse o poeta, o mundo-moinho vai reduzir as ilusões a pó.

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