A lição do mestre Peixinho

Seu nome era Jayme Werner dos Reis, mas jamais lembro de tê-lo chamado de professor Jayme. Aliás, nem eu, nem ninguém dos meus colegas estudantes de Educação Física nos idos tempos de Esef-UFRGS. Para nós, para todos, era sempre o Peixinho – apelido que não faço ideia por quanto tempo acompanhou sua vida, mas absolutamente explicado por sua trajetória ligada à natação. Foi dele um dos principais ensinamentos que tive não apenas para piscinas, lagos e mares, como para a vida.

Estávamos abordando técnicas de sobrevivência e salvamento no meio aquático quando, ao olhar para mim, ele disse como a zoar do meu porte físico: Rubem, você salva apenas crianças, entendido? Todos riram, eu inclusive. Após o momento de descontração, passou a falar a sério. Por mais que se desenvolva as técnicas de socorro a um afogado, há uma variável que não se pode contornar: o peso. E a diferença de tamanho entre o salvado e o salvador concorre numa relação direta ao sucesso da empreitada. No caso, quanto mais pesado for o afogado em relação ao socorrista, tanto menor será a chance de êxito. Pior: morrerão os dois.

É muito difícil ser racional e calculista em momentos de emergência. Todavia, segundo o professor, essa consciência prévia diminui a fatalidade: uma pessoa de, digamos, 80 quilos (em pânico), me levaria fácil para o fundo, restando dois óbitos, por mais correto que fosse o procedimento. O seguro, o eficaz, seria gastar minhas energias chamando adiante por socorro, mesmo que a frieza soe cruel ou a incerteza desespere. Enfim, se é terrível pensar numa ação calcada em mera redução de danos, pior ainda será partir para o martírio puro e simples numa empreitada inglória. O contrário disso é sandice ou paixão.

Agora, por que afirmei ser essa lição uma para além da água, para a vida? Porque afogamento pode ser uma metáfora para outros eventos. Uma falência, por exemplo, dificilmente é revertida em descompasso de peso monetário e gerencial, por mais engajado que seja o intento de quem se disponha a resgatá-la. Reputações, igualmente, cabem muito bem nestes casos – dependendo da carga e das circunstâncias, podem levar muita gente boa para o fundo antes de serem salvas do malogro (na hipótese de serem).

Bom, a aula do Peixinho deve estar zunindo geral nos ouvidos por aí. Há muita gente temendo um “abraço de afogado” em 2018. Desesperador é gritar para a costa sem ver nomes de peso. E o repuxo pegando.