Para a última refeição

Por Rubem Penz

Soubesse ser sua última refeição, antes, teria aberto aquele intocável uísque que um dia ganhara de presente, retirado do armário o copo de cristal para tilintar quatro pedras de gelo; sorveria com calma o encontro entre o frio do líquido com o calor do álcool, experimentado qualquer tipo de elevação tão bem representada nos clássicos da literatura e do cinema; ou apenas constatado na adstringência do pós-gole o sentido de provocar o paladar com sabores raros.

Soubesse ser sua última refeição, investiria alguns minutos vestindo a mesa com zelo; gastaria tempo na decisão entre misturar os jogos de louça, colorindo o tampo como se fosse uma tela de Miró, ou, ao contrário, partiria para um visual minimalista com tudo em branco (quem sabe buscar os guardanapos de linho herdados da tia e sepultados no fundo de uma gaveta); outra possibilidade seria levar a mesa para outro ponto da casa, talvez a varanda, sacada, pátio ou sala de estar (no caso de fazer as refeições sempre na cozinha, mesmo).

Soubesse ser sua última refeição, escolheria entre o cardápio mais simples – e que, de tão familiar, remeteria ao colo do pai, da mãe ou da avó – e o mais exótico, cuja receita esperava por uma ocasião qualquer, mas que nunca pareceu aparecer. Difícil decidir. Uma certeza seria a mais certa: haveria prazer, pois não se deve perder os últimos grãos da ampulheta engolindo banalidades, contrariedades, ofensas ao bom-gosto. E a sobremesa viria como um presente de bodas, doce como a vida dificilmente consegue ser.

Soubesse ser sua última refeição, e estivesse a sós, desligaria a TV para que a solidão fosse solidária companhia; colocaria uma música suave para tocar em um volume cordial e exercitaria ao máximo a audição seletiva – aquela que isola de importância os ruídos vindos da vizinhança. A dois, ou em família, jamais falaria em dinheiro, política, violência, ou seja, calaria os jogos de poder. Ao invés, relembraria passagens da infância, ou determinada primeira vez marcante, ou uma viagem que devesse repetir (negando, até o fim, a realidade de ser a última refeição).

Soubesse ser sua última refeição, jamais contaria calorias ou vantagem; evitaria a morbidez de filmar ou tirar fotos; faria questão de servir o prato de todos; demoraria bastante nas conversas francas como sói as regadas a vinho ou cerveja; deixaria canais abertos para as crianças interromperem e os jovens bradarem suas contagiantes certezas. Porém, o certo, certo mesmo, é que soubesse ser sua última refeição, não teria lavado a louça.

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