FIM DE UM CICLO

Quem tem curiosidade histórica e satisfaz esse interesse lendo, pesquisando e refletindo sobre os fatos ocorridos no ambiente em que vive ou no mundo conclui, com certa facilidade, que tudo que ocorre em nossas vidas obedece a ciclos. Bom dizer que ciclo não é círculo, o que de pronto afasta aquela ideia errada de que, passados alguns ou muitos anos, esses fatos, momentos, eventos ou até mesmo pessoas acabam se repetindo iguaizinhos. Podem até ser semelhantes, mas nunca exatamente iguais. Mais ainda, importante lembrarmos que casamentos, sociedades, amizades e tantas outras interações humanas oscilam conforme as circunstâncias, apresentando momentos de baixa e de alta, o que nos permite concluir que a alternância de momentos bons e ruins, muitas vezes chegando aos extremos do maravilhoso ou do péssimo conforme a intensidade das paixões e outras energias que nos governam, são naturais e assim deve ser encarados.

     Nesse contexto, as luzes do renascimento sucederam a idade média, ditaduras cruéis e sanguinárias foram soterradas pelo florescer da liberdade; e epidemias mortais, vencidas pela descoberta de uma droga revolucionária ou pela reação do sistema imunológico dos seres mais adaptados. Claro que pela condição multitudinária em que vivemos, com diversas sociedades contando centenas de milhões de pessoas em suas áreas de prevalência e com milhares de códigos sociais, línguas e costumes nelas compartilhados, esses ciclos não se alternam no mesmo instante para todas os indivíduos ou grupos. Mesmo em nosso país, até em nossas cidades e em nossas famílias, a compreensão do novo e a mudança de comportamento ou de valores não são uniformes e imediatos, jamais alcançando todos os membros com a mesma intensidade ou produzindo os mesmos efeitos, porém, em determinado momento, entre o fim do ciclo anterior e o início do seguinte, a harmonização se dá, de forma voluntária ou forçada pelas circunstâncias.

      O Brasil é uma democracia recentíssima, já que até meados do século passado, por exemplo, mulheres não votavam e presidentes da República eram escolhidos alternativamente entre produtores de leite ou de café mineiros e paulistas. Saímos, há poucas décadas, de um tempo onde a livre escolha se escondia sob coturnos e o livre pensamento era intimidado a baionetas, mas ainda há quem prefira ser tangido feito gado, desde que o feitor se comprometa a resolver à bala qualquer problema cotidiano. Talvez enfrentemos, este ano, convulsões sociais sérias em razão de polarizações já anunciadas e até elejamos os piores representantes de nossa história, porém o nível de conscientização cresce entre os brasileiros e, mesmo lentamente, nossa letargia política e o famigerado jeitinho brasileiro estão cedendo a novos primados éticos. Um ditado diz que “a hora mais escura do dia é aquela imediatamente anterior ao nascer do sol”. Feliz 2018.