Arte, torcida e moral

Com a recente explosão das denúncias de casos de assédio no showbiz mundial, reflexões acerca do clássico tema “conduta do artista/intelectual, versus correção moral do ato de apreciar sua obra”, voltaram com tudo. Os exemplos que podem preencher este tipo de debate são muitos: Heidegger, Richard Wagner e Nietzsche – com níveis distintos de solidez nos argumentos, é bom que se diga – frequentemente são associados ao nazismo. Roman Polanski e Woody Allen – aqui também é preciso ter cuidado para compreender a idiossincrasia de cada situação – talvez estejam mais presentes nos noticiários gerais em função dos escândalos sexuais aos quais são vinculados – corretamente ou não – do que por seus filmes geniais.

Enfim… Poderíamos continuar por horas. Curiosamente, no esporte, também são bastante numerosos os escândalos envolvendo condutas deploráveis, no campo pessoal, de estrelas de todo tipo – é bom esclarecer que, tanto no ramo artístico, quanto no esportivo, não entro no mérito por ora de quais acusações acho justas, quais me parecem pouco sólidas… Para de certa maneira piorar o cenário, há as manchas éticas escancaradas nas biografias de dirigentes, chefes de entidades centrais no meio – não que na indústria cultural fenômenos análogos inexistam… Vira e mexe aparecem também rumores/provas em torno de manipulações variadas, muitas delas capazes de comprometer toda a essência do que seria a alma, o sentido do esporte. E, apesar disso tudo, ao contrário do que ocorre com regularidade no campo da cultura, no âmbito esportivo raras são as indagações: afinal, é correto, moral; faz sentido torcer por determinado atleta, por certa agremiação?

Comentando um jogo recente conheci um italiano que sabia muito de futebol. Torcedor da Juventus, ele me pareceu, inicialmente, fanático por sua equipe de predileção. Quando chegamos a determinado ponto do papo, contudo, descobri: ele, no fundo, sequer seguia apoiando, minimamente, a “Velha Senhora”. O motivo? Os escândalos de arbitragem que tiraram títulos do clube de Turim em 2006.

Por um bom período, simplesmente não conseguia torcer pelo meu time quando este era comandado por um técnico que representa, para mim, quase tudo de ruim: aquele ar de malandragem exultante, que se vangloria com um sorriso de canto de boca; claro anti-intelectualismo, e longa folha corrida da mais pura desonestidade.

Nas manifestações gerais que vejo, todavia, comportamentos, sentimentos nessa linha são exceções. O “vencer a qualquer preço” costuma prevalecer. Deixando claro que há muitas diferenças entre esporte e arte no tocante em tela, e sem a pretensão de esgotar o tópico, fica apenas o convite à reflexão. Na cultura, para mim, é preciso separar, em grande medida, obra e autor – em suma, é perfeitamente possível (e não se mostra moralmente condenável), regozijar-se com trabalhos geniais criados por crápulas. E no esporte? Como fica essa equação? Mais em breve.