Julgamentos

Poucos atos humanos são tão complexos como realizar um juízo de valor quanto a um fato, uma conduta, uma pessoa, enfim, formar um conceito, emitir um parecer, acreditar, conjecturar, imaginar, pressupor ou presumir causas e efeitos de algo que (salvo quando estamos avaliando nossos próprios atos, valores e desejos, e olhe lá…) exige de nós distanciamento, isenção, desapego e lealdade para com aqueles que se submetem ao nosso crivo e às nossas conclusões.

Claro que não me refiro (apenas) ao ato formal de aplicar uma regra de direito, após superadas as fases processuais pertinentes, a um fato concreto, como ocorre milhares de vezes por dia nos fóruns e tribunais. Refiro-me até mesmo àqueles julgamentos que realizamos no cotidiano, avaliando, num aplicativo, determinado tipo de serviço que acabamos de usar, ou a qualidade de um estabelecimento que frequentamos, até mesmo o comportamento ou o modo de falar ou de vestir-se de alguém com quem trabalhamos.

E não nos enganemos: julgamentos são tão comuns aos seres humanos quanto o provimento de nossas necessidades fisiológicas naturais, já que regem aquilo que nos diferencia dos vegetais, que se submetem, quase que invariavelmente, às circunstâncias do ambiente em que vivem, ou dos outros animais ditos irracionais, que agem por instinto.

É que julgamentos implicam escolhas, mais ou menos motivadas, entre tal ou qual resultado, aquele ou esse valor, aquela ou essa hipótese. E escolhas, por seu turno, implicam em renúncias, que redundam em perdas, que são o exato oposto daquilo que nos ensinam desde tenra idade, pelo menos na cultura ocidental, como a marca de sucesso da existência humana: o sucesso do ter em seu mais alto grau de opulência.

Quando – alguns em tenra idade e a grande maioria no leito de morte – concluímos que por mais opulenta e materialmente grandiosa que tenha sido nossa existência, de nada adiantou se ao longo dela não fizemos as escolhas que fizeram a diferença para melhor em nosso ambiente familiar, social ou de trabalho, concluímos que esses julgamentos representam a maior e mais inteligente expressão daquilo que alguns denominam livre arbítrio, outros de missão outorgada ao homem por Deus, outros mais de razão existencial.

Isso nos remete à conclusão de que nenhuma ferramenta é mais valiosa ao ser humano, nesses julgamentos, que a chamada honestidade intelectual. Não há um só homem que se baste a si mesmo em sociedade. Nossas vidas e destinos estão cada dia mais entrelaçados Se vivemos cotidianamente a mercê das consequências das escolhas e dos julgamentos nossos e daqueles que nos cercam, é fácil compreender que o jogo do “ganha-ganha” só é possível quando todos os que julgam o fazem de maneira que a honestidade intelectual prepondere. Enganar alguém é antiético. Enganar a si próprio é patológico.