Viagem ao fundo do mar

Fazia um dia bonito naquela manhã de outono dando um tom mais azul ao Atlântico, temperatura alta com ligeira neblina misturando os contornos da serra do mar com construções empinadas nas suas costas ou deitadas nas lindas praias que fazem do Rio de Janeiro a cidade mais bela do mundo. Eu sei, tá lembrando da violência, mas isto é coisa dos homens, não foi Deus quem criou como esculpiu o Rio, o Brasil. Mas depois de algum tempo rodando (isto mesmo) sobre as águas do mar numa das estruturas de engenharia mais fantásticas que o homem já construiu, a ponte Rio-Niterói, chegamos, eu e equipe (Matosão, Mariz e Toninho) à base de submarinos brasileiros.Era minha segunda viagem a bordo do Tupi. Submarino fabricado no Brasil com o projeto alemão parecido com o do San Juan, desaparecido com 44 tripulantes nas águas do mar argentino há dez dias. Era minha segunda viagem num navio deste tipo. Um privilégio! Quantas vezes na vida alguém tem a chance de viajar num barco destes que nos lembra das aventuras do capitão Nemo à bordo das linhas do gênio Júlio Verne? Era minha segunda viagem.

Recebido de forma calorosa pela tripulação, que iguala almirante ao mais simples marinheiro na missão, tudo para nós da equipe do Brasil Urgente foi, de novo, a mais pura empolgação.Para nós, uma aventura. No espaço apertado dos seus sessenta e dois metros, cada homem tem sua função. Especialmente corajosos, mas supertreinados, ficam atentos a cada cano, fio, equipamentos variados, que ficam expostos na estrutura interna do barco para em caso de avaria um conserto rápido se os sistemas de reservas não entrarem em operação imediatamente. Talvez, pelo profissionalismo desta gente, em nenhum momento tive medo. O começo da viagem mistura um passeio de barco no alto de sua torre de doze metros pela costa mais linda do mundo tendo como moldura a serra do mar e pinceladas marolas no mar banhando a baía da Guanabara. Ligeiro esforço para pela escada apertada chegar ao comando do submarino para iniciar a submersão. Momentos, claro, tensos, que envolvem qualquer missão militar. Mas a certeza de que cada um que ali está sabe perfeitamente o que vai fazer por anos de treinamento e disciplina. Foi fantástico mesmo, este velho jornalista ver pela segunda vez aqueles jovens homens do mar desempenharem sua missão. Gente que tem rosto e família e um incrível amor pela pátria. Gente que, como os  marinheiros argentinos desaparecidos, parece sobre-humano. São capazes de dar suas vidas pela nação. Onde estiverem, que encontrem a paz divina.