O médico e a doença

Por Cadu Doné

Entre as incontáveis ideias tão originais quanto brilhantes com as quais Tostão nos brindou ao longo de sua consolidada carreira de cronista, eis uma que me acomete o tempo todo: o Brasil pecou por, sobretudo a partir da década de 90, dividir de forma muito amarrada o setor de meio-campo. Volante ou armador. Um ou outro. E os meio-campistas? Sem espaço. Paramos de fabricar.

Este pensamento me vem frequentemente porque ele se prova verdadeiro em diferentes fenômenos. À exceção do Grêmio em determinado período considerável, não tivemos na temporada do futebol nacional sequer uma equipe capaz de propor o jogo com qualidade. Consistência. Assiduidade. Cansamos de testemunhar times estrelados, donos de orçamentos estratosféricos penando, despidos de repertório, diante de pequenos abnegados. A famigerada dificuldade para furar retrancas, quase um mantra, uma muleta oficial para professores de variados perfis, segue firme e forte. Tudo isso passa pela sacada que Tostão teve anos-luz à frente de nós mortais.

Quase todos os nossos times atuam no 4-2-3-1. Pelo centro, dois volantes e um homem de ligação. Se os dois primeiros preocupam-se basicamente em marcar – e mesmo quando “saem para o jogo” com recorrência o fazem sem que suas participações se tornem minimamente sofisticadas em termos táticos e/ou similares à de um organizador nato –, todo o trabalho de criação sobra para uma só figura. Óbvio ululante: fica, em geral, mais fácil para o oponente marcar. Ademais, pelo modo “quadrado” com que as funções do meio andam sendo distribuídas, quase sempre no Brasil existe um latifúndio entre os volantes e o armador. E tem gente que ainda pergunta o motivo para tantos chutões…

No duelo contra a Inglaterra na semana passada, a seleção de Tite pouco construiu. Os britânicos – completamente desfalcados – se fechavam, sem a bola, com uma organizada linha de cinco na defesa. Dá para dizer, sim, que o Brasil sentiu falta de meio-campistas da linhagem a qual aqui me refiro, aludindo ao mestre Tostão. Quando você possui duas peças deste tipo à frente de um só volante, e se ambas flutuam – com consciência, inteligência, liberdade – sobretudo entre o centro do campo e a área inimiga, sem amarras, sua chance de romper ferrolhos aumenta exponencialmente. Paulinho não é exatamente este cara – no momento ofensivo funciona principalmente surgindo já bastante adiantado, não como um “controlador de meio-campo”, não como um maestro. Renato Augusto é inteligente taticamente, mas carece da dinâmica necessária para executar o labor neste texto exaltado.

Com folga, uma disparidade descomunal, o melhor exemplo atual para espelhar o que estou dizendo se encontra no meio-campo do Manchester City. Guardiola, claro. A completude dos papéis exercidos por De Bruyne e David Silva parece advir de outro esporte – se o objeto de comparação for o que observamos nos nossos gramados…

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