Leis, nus e arte

Mesmo pesquisando muito não consegui descobrir onde está escrito que ao eleger um deputado ou senador a sociedade outorga ou transfere para esses eleitos o direito de decidirem o que é bom ou mau, feio ou bonito, conveniente ou inconveniente em temas tão privados, íntimos, como o uso do próprio corpo, preferências sexuais, artísticas ou religiosas. Tampouco consigo entender o que leva uma pessoa a acreditar que a sua forma de ver a vida, suas crenças, seus prazeres, suas descobertas, sucessos ou fracassos são oponíveis a quem quer que seja, mesmo seus familiares, como verdades absolutas, incontestes. Também nunca compreendi o que sustenta, no coração ou na mente das pessoas, a crença de que se você tolher, proibir ou negar acesso a alguma coisa ou estado a alguém que tenha voluntariamente optado por seu desfrute, inclusive sabendo das consequências positivas e negativas de sua escolha, terminará por convencer essa mesma pessoa do acerto de suas convicções, em confronto com o erro compreendido na opção atacada. É muita pretensão, penso, achar que alguém que teve experiências pessoais, culturais ou físicas absolutamente distintas das minhas, que nasceu e cresceu em um ambiente absurdamente diferente do meu e teve acesso a informações, livros, filmes, e viveu situações que nunca suspeitei existir, possa comungar do mesmo entendimento ou ter a mesma concepção que eu tive de qualquer fenômeno da natureza ou fato social. Claro que existem regras, leis, normas cuja função maior é estabelecer critérios e parâmetros de convivência que possam, em determinados assuntos, valer para um grande contingente de pessoas, mas nenhuma legislação formulada ou aprovada por gente com mais de um neurônio funcional contempla prescrições que afetem o livre arbítrio em sua estrutura mais profunda, que é a escolha do belo em contraposição ao feio, do prazer, em contraposição à dor, do interessante, em oposição ao apático. Acho grosseiro, ultrajante e desrespeitoso alguém usar símbolos religiosos associados a determinados temas como sexo, apenas para chocar e chamar atenção para sua arte. Sim, arte, mesmo que eu não goste. Monet brincava com luz e sombras, e Dali associava imagens bizarras… Tudo questão de estilo. Com eles deu certo. Na natureza um macaco, quando urina sobre outro, agachado, quer apenas submeter ou corrigir o dissidente de forma a garantir a unidade do grupo e a própria sobrevivência. Nós, humanos, desenvolvemos instintos e comportamentos que ultrapassaram o pragmatismo da sobrevivência, e isso nos evoluiu intelectualmente. Pois esse intelecto privilegiado também nos fez construir ferramentas capazes de garantir liberdade de escolha e de decidir o que é bom ou não para nossas crias. Macacos não usam controle remoto, mas também não fazem leis que imponham sua natureza ou instinto à diversidade de bichos que povoam a selva.