O efeito Marina

Por fabiosaraiva

fernando-carreiro-colunistaNão há significativa mudança de estratégia nas campanhas de Dilma Rousseff e Aécio Neves com a entrada de Marina Silva na disputa. Há, sim, mudança de alvo. Antes, o staff da campanha petista preocupava-se em manter a liderança (mesmo que tímida para uma presidente da República) nas pesquisas, de longe nada ameaçada pelo então segundo colocado, Aécio. Este, por sua vez, centrava sua artilharia na petista sem se descuidar de Eduardo Campos, então longínquo terceiro colocado nas pesquisas. Marina entrou, roubou a cena no mercado político e as atenções dos dois outros candidatos, que passaram a mirar em seu desempenho e a observar, com preocupação, seu crescimento nas pesquisas. Mas nada que comprometa a linha traçada pelos consultores políticos das campanhas. Os programas eleitorais nesta primeira semana não me deixam mentir. Dilma aposta no legado deixado pelo ex-presidente Lula, seu padrinho político e um dos protagonistas de sua propaganda no rádio e na TV, e em seus três anos e meio de gestão. Aécio prega que a “mudança de verdade” está em suas propostas, que carregam, inclusive, a manutenção de programas sociais como o Bolsa-Família, firmados no governo do PT (embora iniciados, sob outro manto, na administração de FHC). Marina tem seu estilo messiânico que agrada tanto às massas jovens quanto às donas de casa que se veem na figura da candidata alfabetizada tardiamente aos 16 anos, ex-empregada doméstica e que, apesar das sérias complicações de saúde (ainda criança, teve contaminação por mercúrio, contraiu malária cinco vezes, hepatite e sarampo), continua empenhada em “mudar o Brasil” – discurso que virou mantra de 10 entre 10 candidatos. Marina sempre foi ameaça velada aos projetos de petistas e tucanos. Ex-militante do PT e com bom relacionamento no PSDB, a acriana já aparecia no segundo lugar em simulação feita pelo Datafolha em abril: tinha 27% das intenções de voto; Aécio, 20%; Dilma, em primeiro, 39%. Os números se contrapõem às insinuações de que o crescimento de Marina se deu por comoção após a morte de Campos há duas semanas. Marina tem recall e preocupa os adversários. O que não quer dizer que ela vá vencer a eleição, que tem se mostrado inconstante e atípica: morna na rua, sem recursos financeiros, com propostas de governo requentadas, sem novidade. Até o lendário Eymael, o democrata cristão, abandonou o jingle pelo qual se tornou conhecido, e o Partido da Causa Operária já não convoca mais “quem bate cartão” a não votar em patrão. Está tudo muito mudado.

Fernando Carreiro é jornalista especializado em comunicação eleitoral e marketing político.

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