Morte, show da vida

Por Carolina Santos

Gustavo Varella CabralUm dos grandes mitos que sobrevive em tempos eleitorais é a da tal “propaganda eleitoral gratuita”: não é nem nunca foi gratuita. Esse equívoco só se mantém porque as emissoras não recebem diretamente do candidato o valor das inserções, mas compensam o tempo usado nos impostos que pagam pela atividade exercida. Ou seja, a conta existe e não é barata. Se isso faz parte do universo político brasileiro, não importa aqui refletir. O que afronta e agride o bom senso é que em nome de uma suposta “democracia de valores”, ou de uma pretensa “liberdade de expressão” sejamos nós, eleitores, que indiretamente arcamos com o custo dessas inserções em rádio e TV, submetidos ao ridículo que alguns candidatos nos impõem. Não se pode exigir de algum noviço pretendente ao mandato a segurança e a desenvoltura dos que buscam sua reeleição, já calejados pelo sistema, ou dos experientes em ambientes midiáticos. Daí não espanta que os escassos segundos de “fama” reservados a cada um deles venham recheados de clichês e frases de estilo, dos “o seu amigo de sempre”, dos “oi, você que está cansado” ou das associações a profissões ou atividades “extra-urnas”. Tampouco esquisitices pitorescas como comunista abraçando banqueiro, ambientalista exibindo motosserras ou bandido dando lição de moral discrepam da média da fauna da estação. O que causa vergonha e há muito impõe reação do legislador e mais rigor do aparato de fiscalização é o aviltamento que consiste a aparição de determinados candidatos caracterizados como personagens de história em quadrinhos, ou ostentando condições físicas ou apelidos mais voltados ao burlesco, buscando imprimir na retina do eleitor sua imagem de modo a garantir o voto inercial, que produz absurdos eleitorais. A sociedade não merece jantar ouvindo gracinhas do estilo “porcaria por porcaria vote na Maria”. Não se paga imposto para que parte significativa vá para o ralo em troca de alguns segundos de fama daqueles que acham que aparecer na tela apertando uma buzina, fazendo trocadilhos ou proferindo as mais rematadas sandices consista em modo digno e democrático de exercer sua cidadania. É inconcebível que uma instituição que pretende-se séria, como um partido político, não exerça o necessário “filtro do decoro” entre seus filiados e admita a associação de sua sigla com situações tão esdrúxulas como as que bienalmente nos deparamos. Se parece gozado na hora, é uma tragédia quando se avalia a dimensão social e cultural disso. A inversão de valores é tanta que terminamos nós, os verdadeiros palhaços, pagando o ingresso desse espetáculo grotesco.

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