Um mito

Por fabiosaraiva

jorge-nascimentoO dicionário nos explica. Mito: “relato fantástico de tradição oral, geralmente protagonizado por seres que encarnam, sob forma simbólica, as forças da natureza e os aspectos gerais da condição humana; lenda, fábula”.  Ou seja, mitos vêm de histórias antigas, quando ainda não usávamos a escrita (como eu faço agora), são histórias que trazem a representação de algo que tenha a ver com as relações do homem com ele mesmo, com a natureza, com o medo do inexplicável, da morte. Mitos parecem ter o poder de dar forma, mais ou menos racional, para sentimentos e sensações que nos acompanham, como humanos, desde a nossa primeira infância como habitantes desse planeta. Como as palavras (e as coisas) mudam com o tempo, passando de gerações a gerações, a palavra mito também pode significar “representação idealizada do estado da humanidade, no passado ou no futuro”. Ou seja, podemos criar mitos e aceitá-los como uma coisa autêntica, uma coisa boa que “idealizamos”, ou seja, desejamos pensar que seja uma verdade. Isso acontece, comumente, porque todo mundo acatou, naturalizou essa ideia e ela passa a fazer parte de nossa visão de mundo, mesmo que o mundo, muitas vezes, a desminta. E agora estamos nos desfazendo de um mito que foi incutido em nossas vidas, nos livrando de uma ideia de realidade que, mesmo sendo negada no dia-a-dia, era tida como uma forma acabada e, como no dicionário, uma forma idealizada de percepção do mundo. Esse mito encobriu realidades e fatos que costumeiramente estavam presentes diante de nossos olhos, nas mais diversas situações.  Olhando as estatísticas que dizem, por exemplo, que um negro tem 3,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que brancos com a mesma escolaridade e mesma condição econômica, já nos faz pensar… Há algo mais que questões socioeconômicas envolvido nessa história, e vem uma constatação, o negro é mais visado, inclusive, pelos órgãos que deveriam proteger os cidadãos. Fica aqui, então, uns versos do grupo de RAP Racionais Mc’s, que parecem “esclarecer” a situação: “Histórias, registros, escritos, não é conto, nem fábula, lenda ou mito. Não foi sempre dito que preto não tem vez?”.  Ah… O mito? Estamos aqui falando da morte de um mito: É aquela velha história de que no Brasil somos todos iguais perante a Lei e o Estado. O nome dessa lenda? Era Mito da Democracia Racial Brasileira.

Jorge Nascimento é doutor pela UFRJ,   professor do Departamento de Línguas e Letras da Ufes e escreve quinzenalmente neste espaço 

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