Morte, show da vida

Por fabiosaraiva

Gustavo Varella CabralNa esteira da tragédia pessoal de Eduardo Campos formou-se um caleidoscópio de reações humanas extremamente ricas quando se trata de avaliar o impacto que a morte traz, desde a aurora dos tempos, ao nosso mundinho. O genial Saramago, em “As Intermitências da Morte”, imagina um dia em que a senhora dos destinos decide que a partir de determinada data ninguém mais morreria. É o ponto de partida para ampla divagação sobre a vida, a morte, o amor e o sentido, ou a falta dele, da nossa existência. Pois tornando ao epílogo do ex-governador de Pernambuco, pudesse o tempo voltar atrás e poupá-lo do acidente, a sensação que se tem, pela reação de todos os seus circundantes, colegas de militância e milhares de “amigos de infância” descobertos no correr do luto, é que o homem seria aclamado presidente perpétuo do Brasil. É impressionante como a morte beatifica o cidadão. A tragédia, então, é quase a proclamação da santidade. Não vai aqui nenhuma crítica ou elogio à figura ou à história de Eduardo Campos, até porque somente pela mídia tomamos conhecimento de sua trajetória política e pessoal e, sabemos todos, alguns veículos de comunicação idolatram ou demonizam determinadas pessoas na exata medida da verba publicitária que recebem. Apenas observações. Curioso como, mesmo sem ter nada para mostrar além de escombros fumegantes, o cenário do acidente foi o pano de fundo de incontáveis matérias jornalísticas. Outra cena comum em casos tais: pelo relato de testemunhas, ora o avião caiu e explodiu, ora ele explodiu e caiu. Tem gente jurando que foi atentado, outros que sonharam com o prefixo da aeronave. O IML se esforça para concluir seu trabalho, mas teve gente que identificou o ex-governador pela cor de sua íris. Alguns que semana passada diziam-no oportunista, agora descrevem o falecido como um Kennedy de Boa Viagem. E a imagem de dor e pesar exibida por alguns rostos famosos? Há aqueles que até alguns meses só conheciam Campos como a cidade da goiabada, mas que agora narram aventuras e confidências adolescentes com o morto. Não falemos das fotos  que circularam porque essas são lugar comum no nicho da bestialidade humana agora turbinada pela internet. Até o dia das eleições muita coisa vai mudar, outras permanecerão exatamente como sempre foram. Logo mais, independentemente do resultado, as especulações perdurarão por algum tempo. Depois, a saudade da família, dos amigos, fotos, lembranças alegres e tristes. Como qualquer de nós. Menos, é claro, para as outras vítimas da tragédia. Delas foi sonegado o glamour da morte.

Gustavo Varella Cabral é advogado, professor, especializado em Direito Empresarial e mestre em Direito Constitucional.

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