A grande política

Por fabiosaraiva
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Numa tarde perdida no tempo, um deputado, conhecido pela sua retidão ética, se irritou com a troca de acusações entre seus companheiros, num plenário vazio. “Senhores, vamos discutir a grande política”, apelou. Suas palavras provocaram um certo silêncio. E olhares um tanto aparvalhados. E, após alguns segundos de silêncio, as acusações foram retomadas…

A tentativa do deputado era acabar com o nivelamento por baixo do debate parlamentar. Luta inglória: partidos e candidatos têm se esforçado cada vez mais a provar como todos eles são iguais. E, como mostram as pesquisas divulgadas nesta semana, o objetivo tem sido alcançado. Só esse nivelamento explica o fato de José Roberto Arruda liderar a disputa palo governo do Distrito Federal, por exemplo. Para quem não se lembra, Arruda foi flagrado em uma cena perfeita de corrupção: um vídeo mostrava o então governador recebendo R$ 50 mil de um comparsa. A gravação ganhou o Brasil, Arruda perdeu o mandato. Acabou na cadeia. Saiu, escondeu-se num silêncio obsequioso e estratégico. Ressurge agora como favorito na briga pela administração da capital do país. Algo muito parecido acontece com Anthony Garotinho. Após suas estripulias no governo  do Rio, ele foi condenado a dois anos de prisão por formação de quadrilha. Contou com a bondade de nossa legislação, cumpriu a pena com serviços à comunidade e hoje lidera a corrida pelo governo do Rio. E nos últimos dias tornou-se notória a satisfação dos governistas e aliados da presidente Dilma diante da revelação do enroladíssimo caso do aeroporto construído nas terras do tio de Aécio Neves. O sorriso se amplia diante da enorme dificuldade do candidato em responder às acusações, mesmo porque ele está muito pouco acostumado a se explicar… Nas redes sociais, tucanos gritam “Mensalão” de um lado, e petistas respondem com “Aécioporto” do outro.

Assim como os eleitores de Arruda e Garotinho. tucanos e petistas agarrados à troca de acusações parecem não entender que o país necessita cada vez menos de figuras ligadas à corrupção e desse debate menor, que a todos iguala por baixo, e cada vez mais da discussão de ideias para melhorar a vida das pessoas, os serviços prestados pelo Estado, o desempenho do país.  Precisamos, enfim, buscar a prática da “grande política. Não é fácil, como comprovou aquele deputado, conhecido pela sua retidão ética: depois de provocar silêncios estéreis com seus apelos, ele se retirou da vida pública. Morreu decepcionado com seus companheiros. De plenário e de partido.

Antonio Carlos Leite é jornalista há 26 anos. É diretor de Redação do Metro, diretor de Jornalismo da Sá Comunicação e escreve às sextas-feiras neste espaço.

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