A dor que nunca acaba

Por fabiosaraiva

mario-sergio-duarteA fotografia na capa de um jornal com um PM visivelmente abatido, carregando duas mochilinhas azuis, foi suficiente para me provocar um rasgo na alma na manhã de ontem. Sou pai de seis filhos, e todas as vezes que me deparo com tragédias envolvendo crianças, mais do que consternado sinto-me atingido e muitas vezes não consigo esconder a emoção.

Em 2011, quando o país foi tomado pela dor com o assassinato de várias crianças na escola Tasso da Silveira, em Realengo, o dever de ofício me encaminhou para o local da tragédia. Eu atravessei a cidade com o coração na mão, e confesso que só fui para lá porque, como comandante-geral da Polícia Militar, minha presença sinalizava o compromisso da instituição para que providências imediatas fossem tomadas, mesmo as que não nos cabiam porque ultrapassavam nossa competência legal. Segurei a emoção tanto quanto pude, e por um tempo tentei esquecer na rotina diária as dores que presenciei. Desabei, lembro-me bem, num dia, após uma missa com Dom Orani Tempesta em nosso QG.

Ontem, quando vi nos jornais o gravíssimo atropelamento em Guaratiba que ceifou a vida de três criaturinhas de Deus – Érica, Melyssa e Mariana – duas dessas donas das mochilinhas azuis, lembrei-me do drama de Realengo. Mesmo guardando muitas diferenças os dois episódios se encontram na dor inexprimível e, se o massacre da escola podemos compreendê-lo imprevisível, porque produzido por um psicopata fora de controle, para o atropelamento já não podemos dizer o mesmo, porque é produto do monstruosidade voluntária, da crueldade disfarçada de simples imprudência.

Eu não vejo solução para que tenhamos um horizonte menos sofrido se não mudarmos as leis de trânsito, atribuindo a motoristas profissionais sanções mais pesadas. Se não considerarmos que quanto mais complexos os veículos e suas particularidades de categoria maior deva ser a responsabilização de condutores e empresas, não avançaremos um palmo na redução dessas tragédias, mesmo com todo avanço realizado no campo da habilitação de condutores.

É triste pensar que um ônibus matou anteontem e outro acidente grave poderá ocorrer nas próximas horas. É absurdo, mas naturalizamos esses dramas e parecemos não nos importar. Já não nos damos conta de que uma morte violenta no trânsito não é mero integrante de paisagem, e sim a sua mais completa contradição.

Os ônibus têm-nos roubado nossas crianças, nossos idosos, nossa gente mais indefesa. Precisamos avançar céleres nas ações que preservem a vida, porque excesso de velocidade e avanços de sinal já causaram muitas mortes.

O coronel Mário Sérgio Duarte, autor do livro “Liberdade Para o Alemão – O Resgate de Canudos”, escreve às quartas-feiras no Metro Jornal do Rio de Janeiro.

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