O consumidor tem sempre razão

Por fabiosaraiva

lizemara-pratesEstava num restaurante que serve comida típica americana e fui abordada por um pesquisador. Ele foi contratado pela rede internacional para avaliar os frequentadores do local e suas preferências. O entrevistador com formação em psicologia foi hábil na abordagem. Chegou sorridente, perguntou se eu aceitaria responder a pesquisa. Ao ouvir a resposta afirmativa, ficou em pé, ao lado da mesa. Em seguida, pediu licença para sentar dizendo que ficaria mais a vontade. Realmente ficou. Pode perguntar mais. Mas, como sou jornalista, também questionei. A empresa em que ele trabalha tem sede em São Paulo e está fazendo a pesquisa em cinco capitais brasileiras. Eu não pude contribuir muito porque era minha primeira visita no estabelecimento, mas disse que o sabor estava “picante” demais, com muita pimenta; o lugar era um tanto barulhento e havia poluição visual, com televisores pendurados. O que estaria eu fazendo lá então? Por que escolhera o lugar? Fui até lá atraída pelos famosos churros.

A rede quer aperfeiçoar o atendimento, oferecendo ambiente e produtos ao desejo dos clientes. Desejo que pode ser diferente em cada região do Brasil e também nos demais países onde está instalada. As lojas devem refletir a energia da região e um ambiente caseiro. Em resumo, a ideia é aplicar o ditado que o freguês sempre tem razão.

Confirmei o que penso sobre a produção agrícola. O produtor precisa atender à necessidade do consumidor. Vamos ao exemplo do trigo: os panificadores dizem que o pãozinho feito aqui precisa de um grão especial que vem de fora, da Argentina, Estados Unidos ou Canadá. A mistura é necessária para dar o sabor e a textura da preferência dos gaúchos. A pesquisa tem ajudado no desenvolvimento de variedades adequadas ao desejo do consumidor local. E o produtor vem fazendo a migração a cada ano.

Na soja, a China é nossa grande compradora. Aceita soja transgênica e convencional. Hoje, quase a totalidade da produção brasileira é geneticamente modificada. Os europeus não permitem o plantio de OGMs, mas importam igualmente nossa soja.

Na carne bovina, os sulistas gostam de sabor e maciez que são características das raças europeias, criadas a campo, alimentadas com pasto. No centro-oeste, norte e nordeste do país, são as raças zebuínas que fazem sucesso. São mais resistentes ao calor, tem carne mais dura. E são a maioria do rebanho bovino nacional. Vivemos num país que tem mais boi do que gente.

Saí do restaurante pensando que se minhas preferências forem atendidas com ajustes no cardápio e na ambientação, posso retornar para comer, quem sabe, um prato com sabor local e de sobremesa ambrosia ou doce de abóbora.

Lizemara Prates é jornalista do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Apresenta o AgroBand, na TV Band, e tem comentários diários sobre agronegócio na Rádio Bandeirantes e na BandNews FM. Escreve no Metro Jornal de Porto Alegre

Conteúdo Patrocinado
Loading...
Revisa el siguiente artículo