Um vinho barato

Por Carolina Santos

diego-casagrandeTão logo venceu sua primeira eleição presidencial, ainda na festa de posse na avenida Paulista, Lula tornaria célebre a frase “a esperança venceu o medo”. Dias depois, José Dirceu negociava a ida do PMDB para o governo. “Lula, precisamos resolver o problema do PMDB. Sem eles, nossa vida no Congresso vai ser complicada. A gente tem que fazer como o Fernando Henrique e dar os dois ministérios de porteira fechada para eles” disse o futuro chefe da Casa Civil ao presidente recém-eleito. Assim, o partido se tornaria o verdadeiro inquilino da pasta, nomeando do ascensorista ao ministro. Era a velha política mantida por alguém que sempre se vendeu como “o novo”. Os relatos constam do livro “Dirceu – A biografia”, do jornalista Otávio Cabral (ed. Record). Trata-se de uma obra imperdível, sobretudo porque o biografado é hoje, mais do que nunca, foco das atenções nacionais após a prisão por conta do mensalão.

Dentre as dezenas de histórias de bastidor, há a aproximação entre Dirceu e Antonio Carlos Magalhães (ACM), então senhor da vida e da morte na Bahia. Foi um dos primeiros a cobrar a fatura pelo apoio que deu a Lula em seu Estado e que garantiu ampla vitória na capital e no interior. Dez dias depois da eleição, ACM foi levado ao hotel Naoum por Márcio Thomaz Bastos. Pediu dois favores ao homem de confiança do presidente: “que o novo governo não desenterrasse seus esqueletos e que seu grupo político mantivesse os cargos que ocupava em ministérios e estatais”. Dirceu topou o primeiro e garantiu que a Polícia Federal não buscaria denúncias antigas contra ele. Quanto ao segundo pedido, disse que os apaniguados de ACM deveriam trocar de partido, o que foi imediatamente feito. Rapidamente PL e PTB engrossaram suas fileiras e o poder de ACM permaneceu intocado.

Enquanto uma cada vez menor militância aguerrida ainda sonha com líderes puros e de alma santa, estes enriquecem com o poder. Perpetuam-se em viagens nababescas e venda de influência junto ao governo, cujo verdadeiro dono é o povo, embora talvez nunca venha a se dar conta disso. Dirceu teve como clientes Carlos Slim, Eike Batista, a Vale e inúmeras empresas. De 2005 a 2010 faturou dezenas de milhões, segundo consta no livro. Influência era seu cartão de visitas. O Romanée Conti safra 1997 que custou R$ 6 mil e que Lula ganhou de Duda Mendonça para comemorar a vitória hoje é um vinho barato. É o Brasil.

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